Chapada.

Reflexões sobre as nossas viagens à Chapada Diamantina.
Sobre o que vimos, vivemos e aprendemos lá.

 

 


 

Viagens Chapada Chiquinho Pigmentos Vale do Pati Ciclos Sempre-viva Mapas
Chegada Águas Alimento Cachoeiras Diamantes Garimpo Cólera Lapão

 


 

Viagens.

Cada uma das três viagens que fizemos para a Chapada Diamantina, localizada na região central do estado da Bahia, nos marcou bastante. Fomos para lá em dezembro de 2006, dezembro de 2010 e julho de 2013. Conhecemos várias cidades e regiões diferentes da Chapada, como Mucugê, Igatu, Andaraí, Vale do Pati, Vale do Capão, Palmeiras, Seabra, Ibicoara, Lençóis, Itaeté e Iraquara.

Vou relatar aqui as nossas experiências durante essas viagens e o que aprendemos nelas. Tudo o que vivemos lá adicionou bastante à nossa visão de mundo e de nós mesmos, principalmente porque em nenhum outro lugar nos sentimos tão vivos. Conforme acompanharem minha narrativa, isso ficará mais claro.

 


Chapada - óleo sobre tela


 

Chegada.

Eu sempre tinha ouvido falar na Chapada Diamantina, e tinha muita vontade de conhecê-la, principalmente pela fama de suas grandes chapadões e paredões, que eu só conhecia por fotos. Em 2003 fui para a Chapada dos Veadeiros, mas lá não encontrei chapadões tão imponentes quanto os que imaginava.

A primeira vez que fomos para a Chapada foi em dezembro de 2006, quando fizemos uma longa viagem, sem rumo definido, pelo país. Estávamos querendo conhecer melhor o Brasil, para pensar em como seria morar em algum outro lugar, longe de São Paulo. Nessa viagem, acabamos conhecendo vários lugares em Minas Gerais, na Chapada e na Amazônia. Quando ainda estávamos em Minas, na cidade de Diamantina (coincidência?), sem um destino planejado, folheei uma revista e vi fotos incríveis da Chapada Diamantina que nunca tinha visto. Acho que foram tiradas por Rui Resende, um grande fotógrafo da Chapada. As fotos mostravam por exemplo a Cachoeira da Fumacinha, que fica dentro de um cânion com impressionantes paredões verdes. Ficamos entusiasmados e decidimos seguir viagem para finalmente conhecer a Chapada Diamantina!

Para chegar lá de ônibus foi bem complicado. Já que estávamos em Minas, pesquisamos na internet qual era a cidade mais ao sul da Chapada e pela pesquisa que fizemos era Mucugê. Planejamos então entrar na Chapada por lá, para depois ir subindo. Não havia nenhum ônibus que ia diretamente para lá, então tivemos que pegar um ônibus para Vitória da Conquista, depois um para Barra da Estiva, e de lá outro, finalmente para Mucugê, o que foi bem cansativo.

Depois descobrimos que a Cachoeira da Fumacinha fica na região de Ibicoara, que é mais ao sul do que Mucugê. A cidade acabou não aparecendo em nossa pesquisa pois só recentemente a região sul da Chapada começou a entrar nos roteiros turísticos. De qualquer forma, o fato de não conhecermos a Fumacinha nessa viagem não foi nada de mais, dadas as inúmeras e surpreendentes experiências que tivemos por lá, e assim tínhamos também mais um motivo para voltar!

 


Chegando na Chapada - aquarela sobre papel


 

Chapada.

Desde a primeira vez que fomos para a Chapada, fiquei muito curioso em saber como todas aquelas características geológicas se formaram. As pessoas falavam que ali já havia sido mar, mas não sabiam dizer mais do que isso. Não conheci ninguém que parecia ter algum conhecimento de geologia. Somente a informação de que ali já foi mar era muito vaga. Com o tempo fui pesquisando mais e adquirindo livros sobre a Chapada. As pesquisas e livros, somados às minhas experiências práticas por lá, estão frutificando em uma compreensão muito maior da história geológica da Chapada e do que ela é hoje.

Uma chapada é uma área plana, bem mais alta que as áreas ao seu redor, com altitudes geralmente maiores do que 600 metros. Sua definição é muito similar às de planaltos, platôs e mesas. Ela se forma quando uma região uniforme, como uma bacia sedimentar, é erguida de forma relativamente homogênea pela ação de forças do interior da terra. Foi isso que aconteceu na Chapada Diamantina.

 


Chapadões vistos do Morro do Pai Inácio

A Chapada tem como base uma camada de rochas magmáticas muito antigas, que fazem parte do Cráton do São Francisco, uma formação geológica estável, cujas rochas estão entre as mais antigas do planeta, que se formaram quando este se resfriou. Posteriormente, essas rochas originais foram desgastadas pela ação do intemperismo. A erosão nesse período era muito maior do que hoje, já que não havia vida sobre a superfície da terra e a vegetação é a maior responsável por segurar o solo, evitando seu desgaste. Depósitos sedimentares se formaram, principalmente nas regiões mais baixas, onde a água, carregando enorme quantidade de sedimentos, se acumulava em lagos e mares. Esses mares, ao secarem, se tornavam desertos. Esse ciclo que intercalava mares e desertos se repetiu inúmeras vezes. Quando o mar secava, as camadas de sedimentos marinhos e de rios eram tranformadas pela ação do vento em enormes dunas de areia. Depois de inúmeras camadas de sedimentos intercalados sobrepondo-se umas às outras, o peso resultante acabava transformando as camadas inferiores, mais antigas, em rocha, devido à enorme pressão e calor. Assim foram criadas as rochas sedimentares que vemos hoje, que foram erguidas e posteriormente desgastadas, até chegar em sua aparência atual.

 


Rocha sedimentar composta de camadas de sedimentos


 

Águas.

A Chapada Diamantina está localizada em pleno sertão nordestino, mas devido a certos fatores, lá a água é muito abundante. A úmidade que entra para o continente vinda do oceano não precipita até encontrar as elevações da Chapada, que fazem com que o ar esfrie e o vapor de água condense, fazendo chover. A Chapada é uma longa cadeia de montanhas, resquicio de uma antiga cordilheira, orientadas em sentido Norte-Sul, sendo muito estreita. Isso faz com que as chuvas se concentrem no lado leste da Chapada, não deixando as nuvens passarem, como uma barreira. Isso significa que a região leste é muito mais úmida e com uma vegetação mais exuberante, enquanto que o oeste é seco e com menos vegetação. Os rios que surgem na Chapada correm para as regiões do entorno, dando mais vida ao sertão.

 


As águas vermelhas do Rio Ribeirão

Podemos encontrar águas de diversas cores na Chapada. A maioria das águas dos rios têm um tom avermelhado ou amarelado. Em grandes concentrações, como em um poço, essas águas ficam bem escuras, até mesmo negras. Isso se deve aos ácidos orgânicos contidos em suas águas, provenientes da matéria orgânica presente no solo, que as transformam em uma espécie de chá. Mas encontramos também muitos riachos com a água completamente límpida. São geralmente riachos cuja nascente se encontra próxima, em contraste com os rios com maior volume, que correm há mais tempo, já somados à muitos afluentes. Águas aparentemente transparentes, provenientes de rios subterrâneos, quando concentradas em grutas ou poços, dependendo também da forma de incisão da luz, exibem diversos tons de azul, verde e até violeta, como a Pratinha, com sua água azul clara, o Poço Encantado, com seu azul profundo e a Gruta Azul, com sua miríade de cores.

Durante as trilhas, nós bebemos muito da água dos rios da Chapada, tanto diretamente com as mãos, quanto levadas em garrafas. Dá uma sensação muito boa poder beber da água diretamente dos rios, e acho que nunca o fiz em outro lugar com a liberdade que senti lá. Sei que muita gente tem medo de beber a água de rios sem "purificá-la" antes de alguma forma, mas creio que deveríamos ter muito mais receio em beber a água com cloro, fluor, etc, que sai das torneiras nas grandes cidades. Além do mais, a água que bebemos lá têm uma concentração muito grande de minerais e outros elementos benéficos para a saúde, e só temos coisas positivas para contar dessas experiências.

 


As águas azuis do Poço Encantado


 

Chiquinho de Igatu.

Em Xique-xique de Igatu, em 2006, conhecemos o Chiquinho. Garimpeiro, guia, contador de histórias, dono de bar e corretor nas horas vagas, é uma figura ímpar. Nos contou como quase morreu asfixiado no garimpo, por conta de um motor de draga, o motor que bombeia a água para o garimpo. Profundo conhecedor de Xique-xique de Igatu e da flora da região, também nos contou com indignação que uma vez guiou um grande grupo de pesquisadores da marca de cosméticos Natura, que registraram muito do seu conhecimento sobre as plantas, pagando-lhe somente a diária de um guia.

Embora o Parque Nacional da Chapada Diamantina tenha sido criado em 1985, em 2006 o parque ainda não tinha um plano de manejo, que só saiu em 2007. O Chiquinho nos disse, na ocasião, que o plano iria sair em breve, e que todas as trilhas que estivessem abertas seriam mantidas e incluídas no plano, mas que depois não poderiam ser abertas novas trilhas dentro do parque. Com isso em mente, ele resolveu procurar uma caverna que só os antigos conheciam, perguntando a eles sua localização. Ela se chamava Toca do Lobo, e lá já foi realizado o garimpo. Ele disse que tinha acabado de abrir uma trilha para lá, nos convidou para conhecê-la e disse e que só havia levado um casal para lá até o momento. Decidimos ir no dia seguinte. Geralmente não pegamos guias, mas o Chiquinho de Igatu foi uma boa exceção.

 


Entrada da Toca do Lobo

No mesmo dia em que combinamos a trilha com o Chiquinho, visitamos a Cachoeira dos Pombos, e acabei escorregando a batendo forte o osso do joelho, a tíbia. Fiquei preocupado e logo percebi que não conseguiria mais fazer a trilha no dia seguinte, pois mal conseguia andar. Encontramos o Chiquinho, e depois de contar sobre o acidente, ele logo disse que era só eu macerar mastruz com sal grosso, amarrar com um pano no local antes de dormir, que no dia seguinte eu estaria bom. Na pousada onde estávamos acampando eles tinham um pé de mastruz, e fiz o que o Chiquinho instruiu.

Acredito que o receita do Chiquinho funcionou, pois no dia seguinte acordei bem melhor, e pude fazer a trilha e entrar na caverna. A trilha ainda estava com o mato recém cortado, já que o Chiquinho a havia aberto há pouco tempo. A entrada da caverna era bem estreita e íngreme, mas logo estávamos em passagens mais amplas e salões, onde em vários trechos corria água. A experiência foi muito forte, já que o Chiquinho nos providenciou Latas-vela, latas de metal com velas dentro, o que fez tudo ficar ainda mais surreal. Elas não iluminavam muito em comparação com lanternas fortes, que acabam por tirar a sensação de escuridão. Chegamos a ficar na escuridão total por alguns minutos, uma experiência única. Ao sair, ficamos imaginando os mundos ocultos que se escondem sob os nossos pés, e como eles se formam. Até hoje eu tenho um calombo no osso, no local que bati em Igatu, e sempre me lembro dessa história.

Com esse passeio, realizei a vontade que sempre tive de entrar em uma caverna. Durante uma viagem para o Mato Grosso do Sul, em 99, li sobre as cavernas da região, em Bonito. Imaginava como seria entrar em cavernas longas e escuras. Essas coisas mexem bastante com nossa imaginação, acho que tem algo a ver com certos estereótipos e clichês, que só desmistificamos quando realizamos. Fui para Bonito, mas a única "caverna" em que fui foi a Gruta do Lago Azul, que não era como eu imaginava, já que era era uma gruta ampla e clara, e não uma caverna estreita e escura, somado ao fato de que fui de ônibus turistico, cheio de gente, o que banalizou bastante toda a experiência.

 


Chiquinho de Igatu na Toca do Lobo


 

Alimento.

Durante a trilha para a Toca do Lobo, o Chiquinho nos apresentou a muitas plantas medicinais e comestíveis da Chapada, explicando os seus usos. A Batata-da-serra foi a mais interessante delas, pois é endêmica da região da Chapada Diamantina, ou seja, só existe lá. Ele desencavou um monte delas, no meio do mato, e fez uma ótima salada. Ela é comida crua mesmo, é meio crocante e aguada, como a parte dura do pepino. Ele até nos ensinou como encontrá-la no mato. A planta é uma trepadeira, então é só identificá-la subindo pelas árvores. Durante a trilha para o Vale do Pati, acho que identifiquei uma, mas como não tinha nenhuma ferramenta para cavar além das mãos, acabei não conseguindo achar as batatas. Só voltei a encontrar a batata-da-serra anos depois, em Lençóis, na feira da cidade (foto da salada que fizemos com ela). Trouxe uma para casa, e ela está durando bastante, já fazem dois meses que estou com ela aqui. Não faço ideia de como plantá-la, imagino que nem seja possível, dadas as diferenças climáticas.

O Chiquinho também nos ensinou a comer o Xique-xique, cacto que dá o nome à cidade de Xique-xique de Igatu, e que sempre foi uma importante fonte de alimento para os garimpeiros. É um cacto com muitos espinhos, então é necessário colocar fogo neles, o que é muito fácil de fazer pois basta uma chama para que todos peguem fogo juntos. O importante é tomar cuidado para que o fogo não saia do controle, já que lá é muito seco e grandes incêndios as vezes tomam conta da região. Depois, é só cortá-lo e tirar a casca com o que restou dos espinhos. Ele nos serviu cru mesmo, mas disse que pode ser comido cozido. Voltei a comer o Xique-xique em algumas ocasiões, colocando em prática o que havia aprendido.

O conhecimento do uso medicinal e alimentício das plantas sempre me fascinou bastante, principalmente as menos conhecidas e espontâneas, não cultivadas, e sempre quis aprender mais sobre isso. O Chiquinho foi uma grande inspiração nesse sentido. Quando voltamos da Chapada, em 2007, e tivemos a oportunidade de ir morar na Serra da Cantareira, pudemos finalmente começar a aprender na prática.

 


Chiquinho com batatas-da-serra


 

Pigmentos.

No Rio Lençóis, podemos encontrar muitas pedras que ao serem esfregadas ou raspadas soltam bastante pigmento. Há varias cores delas: diferentes variações de vermelho, marrons, ocres e amarelos, roxos, verdes e cinzas. A maioria das rochas da Chapada são sedimentares, formadas pela solidificação de depósitos de sedimentos. Já essas rochas encontradas no Rio Lençóis são ígneas, ou seja, são o resultado do resfriamento do magma, rocha derretida do interior da terra, que penetrou por entre rachaduras na rocha sedimentar já formada. Com o tempo, essa rocha ígnea foi intemperizada, sofreu processos erosivos relacionados à água, por exemplo, transformando-se cada vez mais em uma espécie de lama.

 


Desenho que fiz na rocha do rio

Muita gente se diverte fazendo desenhos com elas nas pedras ou na pele. Eu fiz alguns, inclusive em papel. É legal acompanhar o desenho nas rochas conforme os dias vão passando, pois com as chuvas, entre outros fatores, o desenho vai sumindo, pouco a pouco. Uma vez mexeram em um dos meus desenhos, modificando-o.

 


Pintura que fiz com os pigmentos das pedras do Rio Lençóis

Outra coisa interessante é que esses tons são exatamente os mesmos usados nas pinturas rupestres feitas pelos homens que viveram na Chapada há milhares de anos. A estimativa é que a maioria das pinturas tenham sido feitas ao redor de 10.000 anos atrás. Eles as faziam em lugares protegidos das intempéries, como paredões de pedra, o que garantiu que ficassem preservadas até os dias de hoje. Parece que em alguns casos eles usavam gorduras animais para fixar os pigmentos, mas em muitos casos eram aplicados unicamente com água, o que é impressionante, já que não imaginamos que um simples desenho na rocha possa durar milhares de anos.

Na Chapada existem inúmeros sítios arqueológicos com pinturas rupestres. Li que um dos que tem o maior número de pinturas é a Serra das Paridas. Tentamos ir lá, mas quando chegamos no portão de entrada, ele estava fechado, e não havia ninguém a vista. A placa sinalizando o local estava caída e danificada. Ficamos muito chateados, já que fomos até lá a toa. Perguntamos em uma casa próxima e nos disseram que talvez fosse necessário agendar uma visita. A única pintura rupestre que vimos foi na Caverna da Torrinha, que continha pinturas de peixes, mãos, um sol, pessoas, animais e corujas. Elas ficavam em um local bem alto, então nos perguntamos como foram feitas.

 


Pinturas rupestres na Caverna da Torrinha


 

Cachoeiras.

A quantidade de cachoeiras na Chapada é impressionante. Cada rio de lá tem incontáveis quedas d'água e locais propícios para banho. Além disso, as centenas de milhões de anos de erosão da paisagem criaram vales profundos, com cachoeiras de alturas vertiginosas. A Cachoeira da Fumaça, por exemplo, já foi considerada a maior do Brasil, com 340 metros de queda livre.

 


Cachoeira da Fumaça

Adoramos tomar banho de cachoeira. É ótimo entrar em suas águas refrescantes durante uma trilha, ajudando a diminuir a temperatura e dando uma sensação de frescor muito boa. Um bom banho de cachoeira substitui perfeitamente o banho de chuveiro, e suas águas são muito benéficas para a pele, cabelos, circulação, etc. Nem mesmo sentíamos a necessidade de usar shampoo, e a limpeza era ainda melhor, já que além das propriedades da água, a força da cachoeira não se compara com a de uma ducha comum.

 


Banho na Cachoeira da Primavera


 

Vale do Pati.

Quando estávamos em Andaraí, em 2006, dois americanos, que estavam na mesma pousada que nós, nos perguntaram se queríamos fazer a trilha para o Vale do Pati com eles, sem um guia. Não sabíamos nada sobre o vale, mas pareceu uma boa ideia e concordamos em ir. Acordamos bem cedinho, saímos pouco antes do sol nascer. A trilha sai da cidade, subindo um morro. Logo percebi que a minha mochila estava pesada demais para uma trilha daquelas, e os americanos estavam com muito mais pique que nós. De qualquer forma, geralmente fazemos trilhas em um ritmo tranquilo, sem correr, fazendo muitas paradas e observando bastante o entorno. Mas a pressa deles era tamanha, que um deles chegou a carregar a minha mochila por um trecho do caminho, para irmos mais rápido. O momento em que finalmente tivemos a primeira visão do Vale do Pati foi marcante, pois surgiu diante de nós um paredão imponente no outro lado do vale, um chapadão como os que eu tanto queria conhecer.

 


Chegando no Vale do Pati

A partir daí, começamos a longa descida da Ladeira do Império, descendo as escarpas do vale, seguindo o rio. A visão do Morro do Castelo, que apareceu à nossa frente, era impressionante. A caminhada parecia interminável, e somente ao anoitecer chegamos na "Prefeitura", uma casinha na base do Morro do Castelo. Decidimos montar a barraca lá mesmo. Os americanos, que tinham planejado chegar ao Vale do Capão em somente um dia, sendo que ainda faltavam 25 Km, decidiram continuar caminhando, chegar o mais longe possível, e continuar no dia seguinte. É interessante perceber a diferença no ritmo de cada grupo ou pessoa, e os objetivos e motivos de cada um para fazer uma trilha como aquela. No caso dos americanos, era um trekking, um esporte. Para nós, era para conhecer a região, a geografia do lugar, as plantas. Era para estar lá, e não só passar por lá.

Na Prefeitura, me desfiz de muita coisa que estava carregando na mochila, pois não suportava mais carregar tanto peso. Quem cuidava de lá era o filho da Dona Raquel, que falou para ficarmos hospedados na casa da mãe dele, que era perto, então seguimos para lá. Decidimos ficar lá por alguns dias, para descansar da longa e cansativa trilha, e também porque o lugar era simplesmente maravilhoso. Nos sentíamos longe de tudo, longe da civilização, como se estivéssemos "ilhados", e essa sensação era muito especial, diferente de tudo o que eu senti até então. Sem televisão, sem geladeira, sem eletricidade. Os poucos moradores do vale, no meio do parque nacional, já estavam lá antes da criação do mesmo. Já houveram plantações de café no Pati, mas em 1929, com a crise econômica, o preço do café caiu vertiginosamente. O governo de Getúlio Vargas decidiu comprar dos produtores milhões de sacas de café e simplesmente queimá-las para elevar o seu preço. Os moradores do Pati nos contaram que isso pôs um fim ao plantio do café por lá. Hoje, o IBAMA precisaria indenizá-los para tirá-los do vale. Acho que isso não ocorrerá, já que eles fazem e sempre fizeram parte do parque, sendo um importante ponto de apoio para o turismo.

Ficamos 5 dias no Pati, passando inclusive o Natal lá. Tivemos um contato muito bom com a família da Dona Raquel. Dei à eles uma aquarela que fiz do Morro do Castelo. Eles me pediram para ensinar um pouco de pintura e inglês para eles, e nos ensinaram muitas coisas também, como a fazer um pão caseiro, o que levou a Ju a se aprimorar cada vez mais nessa arte. Passamos nossos contatos, e um dos filhos da Raquel, o André, nos ligou da cidade mais próxima, Guiné, durante uma festa de São João, para saber quando voltaremos para lá. Queremos muito voltar!

 


No Vale do Pati - aquarela sobre papel


 

Diamantes.

O diamante se forma em profundezas muito grandes, a centenas de quilômetros de profundidade, em meio ao magma. Lá o calor e a pressão são grandes o bastante para cristalizar os átomos de carbono, formando o diamante. Sempre se compara o diamante com o grafite, já que ambos são compostos de átomos de carbono. A curiosidade reside no fato de que o diamante é um dos materiais mais duros conhecidos, enquanto que o grafite é muito mole. Embora o grafite também seja um cristal, seus átomos estão ligados apenas em camadas paralelas, empilhadas umas sobre as outras, que são facilmente deslocadas. Já no diamante, os átomos estão ligados em todas as direções, presos uns aos outros, sendo muito difícil separá-los.

 


Diamantes brutos garimpados na região de Lençóis

A maneira como os diamantes foram parar na Chapada é muito interessante. Como eles se formam nas profundezas da terra, primeiro eles foram trazidos para a superfície pela ação de vulcões. Como estavam em meio ao magma que se resfriou, os diamantes ficaram presos dentro das rochas. As rochas ígneas onde diamantes são encontrados são chamadas de Kimberlitos, nome relacionado à cidade de Kimberly, na África do Sul, onde foram encontradas essas rochas pela primeira vez. Na Chapada, nunca foram encontrados os Kimberlitos associados aos diamantes de lá. O motivo é que tudo isso aconteceu há bilhões de anos, e durante todo esse tempo, os vulcões, com seus Kimberlitos, foram completamente erodidos pelo intemperismo. Os rios da época desgastaram essas antigas montanhas, levando todo esse material, formado de seixos, cascalho e areia, juntamente com os diamantes, para longe dos locais dos vulcões originais. Esse material foi depositado no leito e na foz de rios. Após sucessivas camadas, esse material se transformou em rocha devido à pressão, e os diamantes ficaram presos mais uma vez, desta vez dentro de uma rocha sedimentar, chamada de conglomerado. A história não acaba aí, já que ocorreram movimentos da crosta terrestre que elevaram essas rochas sedimentares, e o processo erosivo começou mais uma vez, libertando muitos diamantes novamente. Aí é que entram os garimpeiros, que encontravam os diamantes já soltos, nos leitos dos rios, entre o cascalho, ou então dentro do conglomerado, que era quebrado.

 


Conglomerado no Serrano


 

Ciclos.

O ciclo de mineração dos diamantes da Chapada, que deram o nome à região, começou nas primeiras décadas do século 19, e seu declínio aconteceu no começo do século 20. Nesses pouco mais de 100 anos, a Chapada foi revirada e virada do avesso. Milhares de pessoas foram atraídas para lá, causando profundas mudanças.

O primeiro declínio no ciclo do diamante brasileiro aconteceu após encontrarem diamantes na África do Sul, em 1867, o que fez com que o preço do diamante caísse muito. Mas logo após essa desvalorização, foi identificado um novo tipo de diamante na Chapada, o Carbonado (ou Carbonato), um diamante negro, que antes era descartado pelos garimpeiros. Um diamante carbonado não é um único cristal, mas sim inúmeros microcristais, o que o faz ainda mais resistente que o diamante comum, e ele era encontrado somente na Chapada. Com a revolução industrial em curso, houve uma enorme demanda do diamante carbonado pela indústria, dada a sua dureza. A mineração na Chapada foi revigorada por mais algum tempo, mas não tardou em mostrar sinais de decadência. A cidade de Igatu, no auge da mineração, tinha dezenas de milhares de habitantes, que hoje não passam de 400. As ruínas das casas e tocas dos garimpeiros, feitas de pedras, formam uma verdadeira cidade fantasma.

 


Ruínas de casas de garimpeiros em Igatu


 

Garimpo.

Antes do início do garimpo na Chapada, os solos da região eram férteis e haviam densas florestas, que hoje já não existem mais. A vegetação foi queimada e desmatada, e devido à ação do garimpo, o solo foi levado embora pelas águas dos rios, que na época ficavam barrentos por conta da atividade. Alguns rios localizados em regiões mais baixas, como o Rio São José, chegaram a ser assoreados, ou seja, ficaram com seu curso tomado de areia, trazida das regiões onde o garimpo era realizado. As faces expostas de rocha acabaram sendo colonizadas pela vegetação de campos rupestres, que cresce geralmente nos topos de morros, onde não há muito solo disponível.

A forma mais simples e menos nociva de garimpo é a peneiragem do cascalho dos rios, que visa encontrar os diamantes que já foram soltos pela erosão da água. Já as outras formas, que são muitas, são bem mais agressivas, e envolvem cortar e destruir barrancos e encostas. Para fazer isso, é necessário o acesso à água, que é usada para remover o solo e a areia e expor a rocha e o cascalho. Rios e corregos são desviados de seus cursos, e longos aquedutos são contruídos para levar a água onde ela não está disponível. Depois de separado, o cascalho é lavado em diversas etapas, para finalmente isolar os dimantes do restante do material. Posteriormente, mesmo com o garimpo decadência, uma forma ainda mais agressiva de garimpo foi implementada, usando dragas. Elas bombeiam a água com força, desfigurando áreas inteiras. Em 1996 o garimpo com dragas foi proibido na Chapada.

 


Ruínas de um aqueduto do garimpo Estrela do Céu

O Serrano e o Salão de Areia, em Lençóis, que estão entre as principais atrações turísticas da Chapada, são considerados por muitos como formações geológicas naturais. Na realidade sua aparência atual é fruto de uma extensa exploração. As margens do Rio Lençóis, que originalmente era muito mais estreito (como ainda é em outros trechos) e com florestas ao redor, foram destruídas e ampliadas. Uma grossa camada de rocha foi escavada, deixando uma larga região de pedra nua como resultado. Isso se verifica em muitos lugares do Serrano, nos quais os conglomerados carregam as marcas de terem sido quebrados. O que causa o engano de que as rochas estão em seu estado natural são áreas de conglomerados totalmente polidos, onde corre a água. O desgaste dessas rochas, por incrível que pareça, aconteceu no período posterior ao garimpo, já que o conglomerado, uma rocha sedimentar, não é tão resistente à ação da água e da areia que ela carrega.

Este exemplo serve para percebermos até que ponto a Chapada foi alterada pela ação do homem, já que é difícil saber se certas características de um local estão ou não relacionadas ao garimpo. Quem nos propôs essa reflexão foi um dos diretores do Parque Nacional, Pablo Casella, que conhecemos na trilha para a Cachoeira da Fumaça com outros integrantes do IBAMA. Ele nos indicou artigos escritos por Marjorie Nolasco, sobre o impacto do garimpo na geologia da Chapada. Neles, a autora defende a visão de que o homem é um importante agente geológico, cujo papel é subestimado. Ainda ocorre com frequência a confusão entre as características geológicas "naturais" e aquelas causadas pelo homem, e que maiores esforços devem ser feitos na direção de identificarmos essa ação humana com maior precisão.

 


Pequena represa no Serrano


 

Sempre-viva.

As Sempre-vivas são plantas encontradas na Chapada cujas flores não mudam de aparência depois de colhidas. Existem na Chapada muitas espécies delas, de diferentes tamanhos e aspectos. Depois do declínio do garimpo, a população local começou a voltar-se à colheita e comercialização de uma espécie específica, a "Syngonanthus mucugensis", endêmica da região. A demanda era grande, principalmente para a exportação. Com o tempo, isso causou a diminuição da espécie nas serras, o que a colocou em risco de extinção.

 


Espécie muito pequena de Sempre-viva

Para proteger essa espécie, foi criado em 1996, em Mucugê, o "Projeto Sempre-viva", que visa controlar a colheita nas serras, que foi proibida, e criar formas de cultivar a planta, para sua eventual comercialização. Como ramificação do projeto, logo foi criado o "Parque Municipal das Sempre-vivas". Em 2006 visitamos a sede do parque, que tem um ótimo centro de visitantes, e fizemos as trilhas para os rios Piabinha e Cumbuca.

 


Poço no Rio Cumbuca - aquarela sobre papel


 

Cólera.

No metade do século 19, no auge do ciclo do diamante, ocorreram surtos de cólera e varíola na Chapada. Para diminuir as chances de contágio, foram proíbidos enterros em igrejas e os corpos eram enterrados em locais afastados da cidade . Em 1855 foi construído em Mucugê, na base de um morro, sobre as rochas, o chamado "Cemitério Bizantino". A arquitetura de seus mausoléus é bem elaborada e variada, sendo que sua construção sofreu a influência de garimpeiros e comerciantes de diamantes de diversas nacionalidades. Os túmulos são pintados todos de branco, mantidos sempre bem alvos, criando um forte contraste na região e dando uma aspecto muito interessante ao conjunto.

 


Mausoléus do Cemitério Bizantino


 

Mapas.

Desde que fomos para a Chapada pela primeira vez, tentamos sempre que possível fazer as trilhas sozinhos, sem guias. Gostamos mais de descubrir por nós mesmos como chegar nos lugares, mesmo que não seja fácil e que tenhamos imprevistos, pois assim sentimos que são nossas descobertas e ficamos abertos ao inesperado. Por isso, os mapas e livros sempre nos ajudaram muito a nos localizarmos e a entendermos melhor a região. Em 2006, em Mucugê, conhecemos o Roberto Sapucaia, autor do mapa "Trilhas e Caminhos", e compramos um. Usamos bastante esse mapa, e na nossa segunda viagem compramos outro ainda maior, pois ele fez edições cada vez mais elaboradas e detalhadas, que contém a maioria das trilhas da Chapada, que ele mesmo mapeou. Além dos mapas, livros que nos ajudaram bastante foram "Um Guia Para a Chapada Diamantina" de Roy Funch, e "Chapada Diamantina - Águas no Sertão".

 


Maquete da Chapada no centro turístico de Lençóis


 

Lapão.

Perto da cidade de Lençóis, está localizada a maior caverna de arenito do Brasil, chamada Gruta do Lapão. Ela pode ser cruzada, tendo 1 Km de extensão. Em 2010, estávamos com um amigo, nos preparando para conhecê-la, mas ouvimos boatos de pessoas que se perderam lá dentro. De qualquer forma, decidimos tentar ir sem guia e sentir por nós mesmos a dificuldade. Seguimos as indicações do livro "Um Guia Para a Chapada Diamantina" para localizá-la, e resolvemos fazer o caminho que sobe o Rio Lapão até a boca, que geralmente é feito para sair e não para entrar na gruta. No caminho haviam pés de mangabas, uma fruta do nordeste. Uma família estava colhendo-as, e pegamos algumas também. Elas devem ser colhidas do solo, pois caem da árvore no ponto certo em que estão maduras. Foi ótimo comê-las, têm um sabor muito diferente. Esse caminho foi lindo, pois a boca da gruta é gigantesca, e pudemos vê-la durante a maior parte da caminhada, aumentando cada vez mais conforme nos aproximávamos.

 


A boca da Gruta do lapão

Os sistemas de cavernas se formam normalmente em regiões de rocha calcária, como as cavernas da região de Iraquara, que podem ter dezenas de quilômetros de extensão. Já a Gruta do Lapão foi cavada pela água em arenitos, rochas muito mais duras que o calcário, por isso as cavernas de arenito não são tão extensas. No passado, o teto da caverna desabou, então ao invés de ser uma caverna com ângulos suaves desgastados pela água, ela é cheia de blocos de rochas quebradas. O rio ainda corre somente em certos trechos da caverna. Ao entrarmos em sua enorme boca, ela vai afunilando até ficar menor, mas ainda assim é bem ampla, um grande túnel. Fomos até um ponto de completa escuridão, mas acabamos decidindo não tentar cruzar a gruta, pois só tínhamos uma lanterna e não queríamos correr riscos desnecessários, não sabíamos se esse túnel iria acabar se ramificando.

Na volta, acabamos fazendo uma incrível descoberta. Como parte do teto da caverna desabou, a água corre hoje por baixo dela. Então quando chegamos mais uma vez no Rio Lapão, resolvemos olhar direito o lugar de onde a água estava vindo. Acabamos conseguindo entrar em um pequeno sistema de cavernas, bem estreito e baixo à princípio, mas que logo dava em pequenos salões, tudo isso com a água correndo sobre os nossos pés. Foi muito emocionante, já que foi algo totalmente inesperado.

Em uma outra viagem à Lençóis, em 2013, voltamos à Gruta do Lapão, desta vez mais equipados e com a intenção de ir mais longe, quem sabe até cruzar a caverna. Mas uma chuva forte elevou os rios da região, então acabamos chegando em um ponto da caverna onde o Rio Lapão corria com força, mais uma experiência inesperada, e acabamos indo só até esse ponto. Ainda voltarei para atravessá-la!

 


Saindo da gruta


 

Fotografias

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Gruta Azul


 

Lúcio Tamino e Juliana | luciotamino@gmail.com | facebook.com/luciotamino