Serra.

Estou criando este espaço para compartilhar coisas sobre a nossa estadia na Serra da Cantareira.
Coisas que vimos, vivemos e aprendemos aqui.

 

 


 

Pássaros Eixo Bugio Astronomia Magrela Cristais Coisas
Observação Floração Pepino Noturno Tiê-preto Obras    
Manhã Cachoeira Figueira Sagüis Quadros Aquarela    
Horta Metamorfose Daninhas Flores Besouros Cavalete    
Maitaca Galinhas Fécula Lua cheia Recanta Hospedeira    
Ciclos Frutas Sabiá-branco Morte Bode Aprendizados    
Pedra Grande Embaúba Fogueira Erosão Libertos Violência    

 

Últimas atualizações:

13/11/2012 - Eixo

14/10/2012 - Cavalete

 


 

Pássaros.

Embora eu sempre tenha gostado de pássaros, eu nunca havia aprendido muito sobre eles. Antes de começar a vir para a Serra, no meio de 2007, eu não sabia distinguir quase nenhuma espécie, o que pra mim parece um absurdo hoje, pois mesmo o Sabiá-laranjeira e o Bem-te-vi que eu conhecia de nome e já tinha visto muitas vezes, eu não sabia ligar o nome ao pássaro. Isso ficou ainda mais claro quando finalmente identifiquei o canto de primavera do Sabiá-laranjeira, que é muito comum em toda São Paulo a partir de Setembro. Percebi que nunca tinha dado muita atenção a este canto, embora sem dúvida já o havia escutado antes. É um canto lindo e muito complexo, cheio de variações, que só agora comecei a notar e apreciar realmente, sabendo quem é o seu autor.

O que fez muita diferença foi que ganhei dois livros que me ajudaram muito: um deles é um guia de identificação de pássaros na grande São Paulo, e o outro um livro imenso chamado Ornitologia Brasileira. O guia é ótimo para identificação, e o outro para saber mais sobre determinada espécie.

Identifiquei quase 100 espécies, e embora eu possa ter me equivocado quanto a algumas delas, tenho certeza sobre a grande maioria, pois várias espécies eu vi muitas vezes, aprendi bastante sobre sua aparência, hábitos, canto... mas já vi muitas que não consegui identificar.

O que tem me ajudado também são sites como o xeno-canto.org e o wikiaves nos quais ao colocar o nome da espécie, podemos, entre outras coisas, ouvir várias gravações de seu canto. Assim ficou mais fácil identificá-los, e é até possível atraí-los tocando a gravação. Consegui atrair um Pitiguari, que canta frequentemente por aqui, até ele chegar bem próximo de nós, a poucos metros. O canto dele é este aqui: cyclarhis_gujanensis.mp3

Para ver a lista de pássaros que identifiquei até agora, entre aqui: passaros.htm

 


Casal de Saí-Azul que fotografei em 2007. O macho é o azul.


 

Observação.

Pintei um quadro de observação de uma cena aqui da Serra. Pintava sempre no mesmos horários, para pegar a mesma luz. É legal observar a mesma cena diáriamente, começamos a notar cada vez mais coisas, e o olhar fica cada vez mais apurado. A beleza da natureza sempre me impressiona bastante quando me disponho a realmente observá-la. Levei bastante tempo pra terminar, e na verdade podia ter continuado pintando-o indefinidamente.

A árvore do centro é uma ameixeira, e ao lado dela há uma mexeriqueira, que estava dando muitos frutos.

 


Serra - 0,7x1,0m - acrílico sobre tela - 2009

Fiz outro, logo depois, só que desta vez em óleo. Estava preparando uma exposição para Julho de 2009 e fiz esses quadros especialmente para a exposição.

 


Natureza - 0,6x1,0m - óleo sobre tela - 2009


 

Manhã.


 

Horta.

Comecei a fazer uma horta na primavera de 2007. Depois de escolher o local, capinei dois canteiros e adubei com terra preta tirada do mato. Nesses primeiros canteiros plantei: Tomate, Pepino, Brócolis, Ervilha-torta, Cenoura, Rúcula, Ervilha, e ervas, como Manjericão e Tomilho.

Antes de vir para cá, eu nunca tinha tido experiência com plantio, e na verdade acho que nunca tinha visto um pé de pepino, de tomate... cada planta que plantava no começo me trazia novas descobertas, como por exemplo o fato de que o pepino, o melão, a melancia, a abóbora, e muitas outras, são todos da mesma família e por isso as plantas se parecem muito. Ou que as ervilhas são trepadeiras, mas só se agarram em galhos finos com muitas ramificações, enquanto a vagem também trepa, mas se enrola ao invés de se agarrar.

Com o tempo fui capinando novos canteiros. Cada época que vai passando traz novas "safras". Embora seja uma horta modesta, sempre dá pra comer algo dela, o que nos dá muito prazer. É bom comer um alimento que nós mesmos plantamos e cuidamos, fresco, sem agrotóxicos e pesticidas, sem mão-de-obra externa, sem transporte, sem mercado... sem dinheiro.

 


A horta depois de alguns meses. Pés de pepino trepando em bambus.

 

Dessa primeira "versão" da horta, alguns pés, como os de pepino e tomate deram super certo, e eventualmente deram muitos frutos, e bem grandes. A rúcula dá bastante, fazíamos salada com ela sempre. O brócolis demorou um pouco mas acabou florescendo. O manjericão virou uma pequena árvore, e acabei transplantando-o para outro local.

Plantas que plantei e deram certo: Tomate, Pepino, Rúcula, Agrião, Brócolis, Couve-flor, Ervilha-torta, Ervilha, Cebola, Cenoura, Couve, Repolho-roxo, Alface, Vagem, Espinafre, Mostarda, Milho, Couve-chinesa, Cebolinha, Manjericão, Orégano, Tomilho, Pimentas, Capim-cidreira, Hortelã, Alfavaca, Alecrim...

Algumas plantas começam muito bem, mas são limitadas pelas formigas Saúvas cortadeiras, que hesito em matar usando venenos. Por isso, por mais que já tenha conseguido plantar Espinafre, Couve, Brócolis, Couve-flor, entre outras, na maioria das vezes elas foram cortadas pelas formigas e desisti de plantá-las. Ao invés, comecei a dar preferência à espécies que as formigas não atacam. As ervas-daninhas comestíveis, como a Taioba, o Caruru-do-reino, o Major-gomes, a Tanchagem e a Capeba, podem ser usadas na culinária de forma semelhante ao Espinafre, Couve, etc. No livro "Plantas Daninhas do Brasil", o autor explica que devido à domesticação das plantas cultivadas pelo homem, elas foram perdendo sua "agressividade", sendo que as plantas daninhas absorvem muito mais nutrientes e de forma mais eficiente e rápida do que as cultivadas: "O conteúdo médio das plantas daninhas é de aproximadamente duas vezes mais nitrogênio, 1,6 vezes mais fósforo, 3,5 vezes mais potássio, 7,6 vezes mais cálcio e 3,3 vezes mais magnésio que as plantas cultivadas em geral". Por isso, além de serem mais vigorosas e precisarem de pouco ou nenhum cuidado, as daninhas são mais nutritivas, motivo pelo qual a substituição realmente vale a pena.

Quanto às formigas Saúvas, li um texto interessante que diz que o ataque das formigas está relacionado com a fertilidade do solo, entre outros fatores, e propõe uma forma diferente de lidar com as formigas, ao invés de usar venenos contra elas. De qualquer forma, já tive que usar o veneno granulado mais que uma vez, para proteger uma árvore recém plantada, por exemplo. Ainda tenho que aprender mais como lidar com elas.

 


Produtos da nossa horta: Tomate, Ervilha, Pepino e Cenoura


 

Maitaca.

Estávamos embaixo de uns pinheiros perto de um lago e nossa cadela que estava conosco (a Magrela) pegou uma maitaca. Conseguimos tirar dela rapidamente e a maitaca estava super agressiva, gritando muito, e mordendo bem forte quando eu tentava ajudá-la para ver se ela não tinha se machucado muito. Mas conforme fui observando-a, percebi que na verdade era um filhote que caiu do ninho, o que me surpreendeu já que era bem grande, forte e agressiva. Fiquei admirado em como ela era arisca. Já que ela caiu muito perto do lago e como ela não voava ainda e outros animais poderiam pegá-la, acabei decidindo levá-la e cuidar dela até que ela possa voar. Ela no começo me mordeu bastante, minhas mãos ficaram todas mordidas, mas agora ela já está bem mais calma. Gosta até de ficar no nosso ombro. Quando tentei alimentá-la no começo, ela não sabia comer sozinha, acho que a mãe ainda regurgitava alimento para ela. Compramos uma seringa para tentar dar uma papa de frutas amassádas misturadas com água, mas ela relutou um pouco a comer. Foi difícil no começo, mas agora ela já está comendo sementes de girassol, banana, abacate, mesmo sem a seringa, que tenho usado agora só para dar água. E tudo isso em apenas três dias.

Logo identifiquei a espécie. É uma Maitaca-verde, ou Maitaca-de-Maximiliano (Pionus maximiliani). Eu já havia observado essa espécie antes por aqui, eles passam gritando, geralmente sozinhos ou em casais. Eles tem uma penugem bem escura, meio cinza, na parte superior do corpo (mas o filhote ainda não). O modo deles de voar é bem carácteristico, voando com as asas abaixo do corpo, então é muito fácil indentificá-los em vôo, mesmo a distância.
Se você não sabe a diferença entre uma "Maritaca" e uma "Maitaca", entre aqui: sobre-nome-popular-maritaca

Para ler o que aconteceu com ela depois disso, entre aqui: maitaca.htm

 


A maitaca que encontramos


 

Ciclos.

Como já faz mais de um ano que estamos aqui, já dá pra notar os ciclos começando a se repetir. Isso é outra coisa que não se nota nem se sente muito vivendo numa cidade grande.

Um dos primeiros ciclos que se repetiu foi o das estrelas. Quando comecei a vir, Júpiter estava bem alto na direção das constelações de Escorpião e Sagitário. O Escorpião é uma constelação bem fácil de identificar, com o rabo do escorpião bem marcado com estrelas fortes. Logo em seguida essas constelações e o planeta Júpiter sumiram por trás das árvores a oeste e ficaram meses sem aparecer mais. Durante este ano, quando eles reapareceram, foram nascendo baixo no leste, subindo mais a cada mês, até chegar no mesmo ponto em que estavam no ano passado quando comecei a vir, só que este ano eu comprei um telescópio de 200mm, o que fez tudo ficar bem mais interessante. O centro de nossa galáxia está na direção de Sagitário, portanto existem regiões com muitas nebulosas e aglomerados estrelares, e o planeta Júpiter é muito bom de observar, pois além de ser o maior planeta, suas quatro maiores luas estão sempre em posições diferentes ao serem observadas diáriamente.

As árvores frutíferas e as flores são outros exemplos de ciclos que vimos, pois as árvores e certas plantas florescem e dão fruto mais ou menos na mesma época do ano. A amora por exemplo floresceu e deu frutos pouco antes do início da primavera, e como descobrimos por perto uma amoreira muito grande e carregada, comemos muita amora. Como aqui também tem Goiaba, Ameixa-amarela, Abacate, Pitanga, Mexerica-carioca, Limão-cravo, Maracujá e Banana, pude observar muitas florações e produção de frutos.

 


Conjunção entre Júpiter e Vênus, com a lua acima.
Fotografado daqui, em Fevereiro de 2008,
pouco antes do nascer do Sol.


 

Pedra Grande.

Em Junho de 2010 nós inauguramos uma exposição no Museu da Pedra Grande, no Parque Estadual da Cantareira. A exposição é focada na nossa vivência aqui na Serra, com pinturas, fotos e arte da terra que retratam o dia-a-dia daqui.

 

 

Estamos fazendo novas obras no Parque e adicionando-as à exposição. Está sendo muito legal ter um maior contato com o Parque, vimos muita coisa lá que nunca vimos por aqui, como diversas espécies de plantas e árvores, pássaros e outros animais. O Parque é considerado uma das maiores florestas urbanas do mundo, e é mesmo irônico que São Paulo, uma cidade tão grande e poluída, tenha uma floresta tão grande, que no fundo é desconhecida para a maioria da população.

A exposição vai até o final de Outubro de 2010. Para ver mais, entre aqui: expo-serra.daportfolio.com (ou aqui e aqui)

O local do Museu é muito bonito e privilegiado, localizado numa pedra com uma vista incrível da cidade de São Paulo. Conforme fomos frequentando o Parque e a Pedra, começamos a notar enormes diferenças sempre que íamos lá, mudanças na vegetação, no ar, no clima e na luz. A vista muda muito, em dias em que o ar está limpo por exemplo, como depois de uma chuva, dá pra ver a paisagem até uma grande distância, vemos até as montanhas da Serra do Mar, e as nuvens também são um espetáculo à parte, sempre com diferentes formações.... mas neste inverno, em épocas em que ficou muito tempo sem chover, não dava pra ver muita coisa por causa da poluição e quase não há nuvens.

 


Nuvens e poluição sobre São Paulo


 

Eixo.

No começo da primavera de 2012, comecei a filmar e editar um vídeo para a música "Eixo" da banda Diafanes, da minha irmã Lorena. A música e a sua letra são ótimas e têm muitas relações com o trabalho que venho fazendo aqui na Serra, por isso logo que a ouvi pela primeira vez quis fazer um vídeo para ela.

A primavera foi exuberante e generosa, com dias lindos, e consegui filmar inúmeros animais, flores... mais uma vez pude constatar que quando nos dispomos a realmente observar algo, seja qual for o propósito, nosso olhar fica cada vez mais sensível e profundo, e mais começamos a ver e sentir. Esse processo revigorou minha ligação com a Serra, que estava mais distante por conta do inverno.

 


Uma das cenas do vídeo. Marimbondo ao lado do tronco de uma Paineira.

Acabei reunindo 80 cenas no vídeo, e mesmo assim, inúmeras cenas tiveram que ser deixadas de lado, dado o grande número de cenas que filmei. O mais legal é que cada cena tem seus detalhes, sua história, seu porquê. A cena dos macacos Bugio pulando de uma árvore para a outra, por exemplo, tem um significado muito forte: todo ano, a companhia de fornecimento de energia elétrica, a Elektro, corta todas as árvores ao redor das ruas, por causa dos fios elétricos. Os Bugios utilizam essas árvores para se locomoverem pela mata, e sem elas para fazer a ponte entre as ruas e entre as "ilhas de mata", fica cada vez mais difícil que eles passem de umas para as outras. Os Bugios nunca descem ao solo, mas devido a essa dificuldade, por vezes eles têm que descer, ficando vulneráveis a predadores como os cachorros... também acabam andando nos fios elétricos, o que causa a morte de muitos deles por choque elétrico, ou mesmo as dos que não conseguem pular essa distância tão grande e caem ao chão. Criei um álbum no facebook no qual vou falar sobre mais cenas específicas.

Assista ao vídeo:

 

 

Este ano o Diafanes completa 10 anos. Estou sempre participando do processo criativo da banda. Juntamente com a Lorena, fiz a arte do primeiro CD deles, "See Through", e dei uma ajuda na arte do último CD, "Ave", do qual "Eixo" faz parte. Para complementar a arte de "Ave", juntei uma coleção de penas, muitas das quais são de pássaros da Serra, assim como penas que recolhi em viagens. Também fiz origamis de aves, como o pavão e o cisne.

 


Arte de "Ave", com trecho da letra da música "Eixo".

Para saber mais sobre a banda e o seu novo CD, "Ave", visite o site da banda: diafanes.com.br


 

Floração.

Todo inverno, o Mulungu em frente de casa perde todas as suas folhas e floresce, com suas lindas flores vermelhas, que atraem muitos beija-flores. Numa época chuvosa, pintei com a água da chuva uma aquarela da árvore florindo.

 


Mulungu florido - aquarela e água da chuva sobre papel - 24 x 32 cm - 2009


 

Cachoeira.

Uma das únicas coisas que eu sentia falta por aqui era uma cachoeira, por isso foi muito bom quando o Eduardo (o irmão da Jú) descobriu uma aqui perto. Ela é bem escondida, temos que entrar numa trilha que as vezes some, mas que o Eduardo viu em um dia em que ela estava mais aberta. Quando entrei pelas primeiras vezes na cachoeira, como fazia tempo que não entrava em uma, senti aquele choque forte da água gelada. Agora não estou mais sentindo isso, estou acostumando, e nos dias quentes é muito bom ir até lá se banhar. É gostoso também ficar ouvindo a água, e pisar na pedra. Pensar na água que leva a terra e cava a rocha.

É a água desse riacho que abastece a região, depois de ser tratada. Achei isso interessante, pois eu não fazia idéia de onde vinha a água da minha torneira, e agora eu tomo banho nela, na fonte.

Ao lado da cachoeira tinha uma casinha abandonada, mas que hoje já está com novos moradores. Isso limitou um pouco nossas visitas, já que não há mais tanta privacidade.

 


Cachoeira aqui perto. Essa é uma colagem de várias fotos.
Na foto: Jú, Tobi, Magrela e Tutu


 

Metamofose.

As borboletas colocam dezenas de ovos nas rúculas que planto. Para minimizar o impacto que isso teria em minha horta, decidi tirar as folhas com ovos, e alimentar eu mesmo as lagartas, tentando dar outros tipos de folhas. Acabei não encontrando nenhuma folha que elas gostassem, e acabei dando rúcula e agrião mesmo para elas comerem. Depois de um tempinho elas entraram em estágio de pupa, e finalmente emergiram como borboletas.

 


Lagarta, Crisálida e Borboleta


 

Galinha caipira.

Conhecemos um senhor que mora por aqui que cria galinhas "caipiras". Quando o visitamos, ele nos disse que iria mudar-se daqui e que iria vender suas galinhas antes de ir. Uma das galinhas estava com 9 pintinhos.

Nós não comemos ovos há muitos anos, por não gostarmos da produção industrial de frangos e ovos. Por muito tempo não sentimos a necessidade de voltar a comê-los, mas de uns tempos pra cá percebemos que eles são sim um bom complemento para a alimentação e poderiam fazer parte da nossa, se criássemos as galinhas nós mesmos. Achamos que a relação mais direta entre nós e os animais acaba com os maiores problemas relacionados à alienação moderna quanto aos alimentos de origem animal. Ao criarmos ou caçarmos animais nós mesmos, criamos uma relação direta entre nós e o animal. Isso para mim representa um maior respeito, consciência e responsabilidade em relação a eles e ao que comemos. Não iremos comer as galinhas, pois não as mataria.

 


A galinha com seus quatro pintinhos

Começamos então a construir um galinheiro feito de bambu. Quando voltamos à casa do velhinho, ele nos vendeu a galinha com os pintinhos, que já eram somente 4 pois muitos animais como gaviões e gambás acabaram comendo-os. Dois dos pintinhos tinham o pescoço pelado, que é uma característica de certas galinhas caipiras. Fiquei muito entusiasmado com eles, pois se alimentam praticamente sozinhos, ciscando o dia inteiro (eu só dou um pouco de milho) e por sorte meus cachorros e gatos se deram bem com eles. Mas uma noite, eles foram atacados por algum animal noturno (acho que foi um gambá) e 3 dos pintinhos morreram, o que nos deixou muito tristes, demonstrando também as dificuldades da responsabilidade que assumimos. O pintinho que sobrou está crescendo...

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Depois de cuidar do pintinho por sete meses a galinha colocou seu primeiro ovo desde que chegou aqui. O pintinho agora é uma galinha como ela.

 


O primeiro ovo.

Ela acabou colocando uns 30 ovos, colocando geralmente um a cada dois dias e as vezes em dias seguidos. Como ainda não tínhamos um galo, os ovos não eram galados e por isso eram inférteis. Mesmo assim fico um pouco chateado de ter tirado todos os ovos dela. Depois de terminar de colocar os ovos, a galinha ficou "choca", ou seja, ela não sai mais do ninho, mesmo que não hajam ovos lá, e fica brava quando chegamos perto. A outra galinha começou a colocar ovos agora, logo que a outra parou, e agora temos um galo, então os ovos são galados.

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Hoje, dois anos depois, temos 9 galinhas e galos, entre nascimentos e mortes dos pintinhos que tivemos por aqui. A nossa primeira galinha, que acabamos chamando de "Comadre", ainda está conosco. Entre aqui e aqui para ver vídeos de uma das nossas galinhas com pintinhos.

 


Desenho que fiz da galinha Comadre.


 

Frutas.

O homem sempre deu prioridade às árvores frutíferas por onde passava e vivia, por isso temos muitos pés de fruta, plantados por antigos moradores e habitantes. Estamos também plantando novas árvores com isso em mente, sendo necessário ter paciência, pois demoram anos para uma árvore começar a frutificar. Com o tempo fomos descobrindo outros pés pela região que muitas vezes passam despercebidos ou negligenciados pelas pessoas, embora os animais nunca deixem de visitá-los, e passamos a juntar-nos a eles.

Os abacateiros daqui dão bastante, em certas épocas chegamos a comê-los todos os dias. A polpa dos abacates daqui é densa e amarela, são muito mais gostosos do que os que encontro no supermercado, que tem a polpa muito aguada e esbranquiçada. Também tem por aqui um abacateiro incrível que dá uma variedade de abacate que fica com a casca negra quando amadurece, a ponta dele é mais fina e ele tem um caroço bem pequeno, dando muita polpa.

 


Abacates de um dos pés daqui

 

Temos muitos pés de banana também. Um cacho que tirei das bananeiras deu mais de 200 bananas! As amoreiras também produzem uma quantidade imensa de frutos, que os pássaros também adoram. Com as amoras e bananas fazemos também tortas e bolos. Até nossos cachorros e galinhas gostam de banana, assim como os saguis que nos visitam sempre.

Descobri por aqui uma cerejeira chamada cerejeira-do-mato (eugenia involucrata), nativa do Brasil, e já plantei mudas dela. Também há boas pitangueiras na região e pés de limão-cravo, um limão laranja que eu gosto mais do que o limão comum, com o qual fazemos limonada. Plantei uma jabuticabeira que está indo bem, e tenho várias mudas de outros tipos de árvores, algumas que plantei há mais de dois anos, como uma araucária (que dá o pinhão) que plantei em Junho de 2007 e está crescendo bem rápido. Aqui tem também um grande pé de araticum (araticum-do-mato), mas ele não está muito produtivo, tenho que descobrir por que.

É claro que além dos pés plantados pelo homem há também os que nascem de forma espontânea, suas sementes são espalhadas por pássaros e outros animais. Nasceram aqui uns pés de morangos silvestres, também chamados de amora-vermelha (rubus rosifolius), que se espalharam bastante e são muito gostosos, frutificando muito durante épocas de chuva.

 


Bananeiras com seus grandes cachos


 

Embaúba.

Em frente à nossa casa há uma árvore típica de Mata Atlântica chamada Embaúba-vermelha. Ela dá frutos que atraem diversas espécies de animais, como os tucanos. O seu tronco é oco e dentro dele vivem formigas chamadas de "formiga-de-embaúba" que vivem em simbiose com a árvore, pois ela tem uma glândula específica que fornece uma espécie de mel às formigas e em troca recebe a proteção das mesmas contra ataques de insetos. A folha da Embaúba é muito áspera e pode ser usada também como lixa para madeira.

É preparado um chá diurético com suas folhas, que pode ser feito até mesmo com as folhas secas que caem naturalmente da árvore devido à facilidade de coleta. Ela tem também muitas outras propriedades medicinais. Suas folhas, flores, brotos, casca e raizes são usados para o tratamento de hipertensão, bronquite, tosses, diabete, diarréia, inflamações, entre outros.

A árvore aqui de casa era muito exuberante quando viemos para cá, mas com o tempo foi perdendo suas folhas e seus troncos também estão secando e caindo. Ela ainda está com algumas folhas, mas que só estão crescendo na metade da altura da árvore. Já observei isso acontecer em pelo menos quatro árvores da espécie na região, mas ainda não sei qual é a causa, se é algo que ocorre naturalmente na evolução e envelhecimento da planta, ou se é causado por algo especificamente. No caso desta árvore, o problema pode estar relacionado à uma outra árvore que está muito próxima da sua base, um Mulungu que estava completamente coberto por uma trepadeira e por isso estava limitado por ela. Depois que tirei a trepadeira o Mulungu se desenvolveu melhor, o que pode ter diminuído a quantidade de nutrientes disponíveis à Embaúba (as duas árvores estão retratadas nesta aquarela: #mulungu). De qualquer forma, apareceram também nesse meio tempo outras cinco jovens árvores de Embaúba no meu terreno, que estão crescendo bem rapidamente.

É interessante observar o desenvolvimento e mudanças das plantas, pois são bem difíceis de entender. Envolvem inúmeros fatores, inclusive a nossa própria interferência, da qual não sabemos o verdadeiro papel e impacto.

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Aqui na região há pouquíssimas Embaúbas-brancas (Cecropia hololeuca), uma espécie muito característica por ter suas folhas brancas, que se destacam bastante na paisagem. Por isso, durante uma viagem em que vi inúmeros exemplares na beira da estrada, em diversas fases de crescimento, peguei uma muda para plantar por aqui, que está crescendo bem.

 


A Embaúba perdeu suas folhas com o tempo


 

Bugio.

Há na região uma espécie de macaco chamado Bugio. Ele é grande, e tem um grito que pode ser ouvido a quilômetros de distância. Nas primeiras vezes que ouvi esse grito, achei que era algum tipo de maquinaria ou algo parecido, de tão estranho. É um grito bem gutural, rouco, e muito alto. Eles já passaram bastante por aqui, vinham comer ameixas-amarelas e comem também as folhas das árvores. Meus cachorros ficam latindo para eles, e mais de uma vez eles urinaram e defecaram lá de cima, como algum tipo de defesa ou demarcação de território. Eles pulam de árvore em árvore, as vezes de forma bem arriscada, fico impressionado pelos longos saltos que dão. Por isso não foi de se surpreender que encontrei um deles morto no mato, com um galho quebrado perto dele. As vezes vemos mães passando com o filhote nas costas.

 


Bugio na árvore em frente de casa, comendo ameixas-amarelas.


 

Pepino.

Primeiro, ele brotou. Seguiram-se as primeira folhas. Logo ele soltou os fios para trepar, trepou nos bambús, floriu com flores femininas e masculinas, as masculinas polinizaram as femininas (as que já tinham um pepininho) e então os frutos cresceram.

 


Do pé à mão.


 

Figueira.

Aqui há uma árvore que dá um fruto que atraí um número impressionante de diferentes espécies de animais: bandos de Saíra-lagarta, Sanhaços-cinzentos, Tiês-pretos, Tucanos-de-bico-verde, Sabiás, Cambacicas, Jacuguaçus, Sagüis, Bugios, Esquilos, Morcegos... Vi também na árvore um Pica-pau-anão e um Bico-virado-carijó, mas estes estavam em busca de insetos. Até eu experimentei a frutinha e achei-a bem gostosa.

A árvore é da família das Moráceas (Moraceae), do gênero Ficus. Quem me deu essa dica foi uma amiga minha, a Sofia. Depois de pesquisar um pouco acho que é uma Figueira-da-pedra (Ficus enormis). Li sobre o gênero Ficus e aprendi umas coisas bem interessantes. Existem centenas de espécies de Ficus. É um gênero distribuído pelo mundo inteiro, cujos frutos alimentam populações muito variadas de animais.

Algumas delas começam como trepadeiras, trepam em outras árvores e, com o tempo, acabam matando a árvore hospedeira, por isso as chamam também de Figueira-mata-pau. Há uma outra árvore aqui que percebi que havia feito isso mesmo, pois no seu centro havia um espaço vazio com restos de madeira podre, dava pra ver nitidamente que ela havia trepado e matado uma outra árvore. A trepadeira Unha-de-gato também é do gênero Ficus (Ficus pumila), mas seus figos não são comestíveis. Além disso, como ela é de origem asiática, somente lá existe uma vespa que poliniza seus frutos. Aqui isso simplesmente não acontece, deixando todos seus figos estéreis.

 


Pequenos figos que alimentam uma ampla variedade de animais.


 

Daninhas comestíveis.

Estamos aprendendo bastante sobre as plantas locais espontâneas, as "ervas daninhas", que são comestíveis. Elas formam um ótimo complemento para a horta, e há uma grande abundância delas. Dá uma satisfação muito grande, um sentimento de independência e auto-suficiência, fora o fato de que são gostosas e frescas. É claro que eu tenho muito cuidado ao comer plantas que não conheço, por enquanto só uso espécies que identifiquei com segurança.

A Taioba é uma das que assim que aprendi a reconhecer comecei a usar bastante, principalmente pelo fato de que além das folhas grandes, ela dá um tubérculo enorme, que também é comestível e parece com inhame (são da mesma família). Peguei alguns pés por aí e plantei por aqui, então agora tem bastante Taioba.

O Major-gomes e as folhas da Taioba usamos como se fosse Espinafre. Com a Capeba aprendemos uma receita de charutos recheados, que ficam muito bons. Outra que tenho começado a usar é a Tanchagem. Muitas delas, além de serem comestíveis são também medicinais, com inúmeras propriedades que estamos aprendendo cada vez mais. Uma planta que também está fazendo toda a diferença é o Caruru-do-reino, ou Bertalha-coração, que cresce muito rápido.

 


Plantas locais comestíveis: Inhame-rosa, Major-gomes e Capeba

Para mais informações sobre as daninhas comestíveis, também chamadas de PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais), recomendo a leitura da tese de Valdely Kinupp, grande estudioso do tema: 000635324.pdf
Ele lançou um ótimo livro para a identificação e uso de PANC, que pode ser comprado no seguinte endereço: plantarum.com.br
Depois de ter adquirido o livro, aprendi bastante sobre novas plantas comestíveis que eu não conhecia, o que renovou bastante meu interesse por esse universo. Esse livro lançou as bases para uma revolução que é mais do que necessária, por tratar de questões envolvendo independência e soberania alimentar, nutrição, saúde, cultura e criatividade... deixado o monótono mundo das monoculturas para trás.

Outras fontes muito valiosas de informações são os blogs Come-se da Neide Rigo e Matos de Comer do Guilherme Ranieri. Vocês ainda vão ouvir falar muito das PANC, eu e esse pessoal vamos garantir isso. Vai ser PUNK!

 


Taioba e Capeba


 

Fécula

Faz tempo que ouvi falar que uma planta muito comum por aqui, o Lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), pode ser usado na alimentação. Ele possui rizomas muito parecidos com o gengibre, pois são da mesma família. Ele floresce o ano todo, com belas e perfumadas flores brancas.

 


Flores do Lírio-do-brejo

Recentemente, li no livro "As Ervas Comestíveis" de Cida Zurilo e Mitzi Brandão, mais informações sobre o seu uso culinário. Elas dizem que podemos extrair a fécula (amido) dos rizomas ralando-os (o que dá um baita trabalho) e deixando de molho na água por 2 dias, e assim a fécula se depositaria no fundo. Depois de seguir essas instruções, estava quebrando a cabeça para saber como retirar somente a fécula, pois por mais que ela tenha se depositado no fundo, não havia forma eficiente de separá-la perfeitamente da fibra e não "perturbar" a fécula depositada. Como as autoras diziam que o processo era o mesmo da extração da fécula da mandioca, acabei pesquisando um pouco mais e descobri um ótimo post no blog Come-se, no qual ela descreve um processo similar, mas mais prático, no qual após bater tudo no liquidificador, temos que passar tudo por um pano, espremendo bem. O amido é muito fino e passa pelo pano na água, resolvendo o problema que eu havia tido, pois agora era só deixar decantar e tirar a água. Recomendo que deem uma olhada no blog que mencionei, pois é incrivelmente instrutivo e esclarecedor, a autora nos apresenta alimentos desconhecidos para a maioria, assim como processos de preparo, curiosidades, etc.

 


Rizomas

Depois de seguir os passos seguintes, deixei a fécula secar ao sol, e depois de seca, a peneirei, obtendo o resultado visto na imagem abaixo: uma fécula branca e fina (a finura vai depender do coador), que pode ser usada em diversas receitas. A fécula, ou amido, são reservas de energia que as plantas sintetizam a partir da glicose, um dos principais produtos da fotossíntese e portanto uma importantíssima fonte de energia na natureza.

 


Peneirando a fécula do Lírio-do-brejo


 

Sabiá-branco.

Quase todo ano um casal de Sabiá-branco (Turdus leucomelas) faz um ninho no coberto aqui de casa. Sempre acompanhamos a construção do ninho e as várias etapas do desenvolvimento dos filhotes, desde os ovos, até o dia em que acabam saindo do ninho.

O coberto tem quatro pilares, e conforme eles vão construindo o ninho, vão trazendo material para todos os pilares. Cheguei a ler a respeito desse comportamento: quando há um padrão muito repetitivo onde estão fazendo seus ninhos, os sabiás podem chegar a construir vários. Mas os daqui logo acabam por focalizar em um só pilar, e somente um ninho é feito.

 


O Sabiá-branco adulto

Os pais trazem comida de vários tipos para os filhotes, como minhocas, insetos, frutos, etc. Eles vocalizavam bastante, principalmente no fim da tarde, e também quando nos aproximamos demais. Afastam também, com agressividade, saguis e outros pássaros. Abaixo está uma gravação que fiz de um desses momentos.

Minha maior preocupação é quanto ao dia em que os filhotes saem do ninho, pois temos gatos e cachorros. Por esse e outros motivos, tento acompanhar as fases do seu desenvolvimento, para observar e aprender melhor como funciona esse ciclo, tentando não interferir, o que é difícil.

Com duas semanas eles já estão grandes, mal cabem no ninho. Quando eles saem do ninho, os pais continuaram cuidando deles, os alimentando e vigiando conforme eles exploram e se desenvolvem mais.

Descobri também uma vez um ninho de Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) por aqui, com dois ovos, que são diferentes dos ovos do Sabiá-branco, como dá pra ver nesta foto. O ninho chegou a ter três ovos, mas alguns dias depois não havia mais nada, acho que algum animal comeu os ovos ou os filhotes já nascidos.

 


Ninho de Sabiá-branco: ovos, filhotes crescendo e o primeiro dia fora do ninho.


 

Fogueira.

Fazer fogueiras à noite é uma coisa ancestral, mas que estamos deixando de fazer cada vez mais. A noite nas cidades nem é mais escura, e realmente não é nada viável acender uma fogueira na cidade. Mas em lugares mais escuros, com galhos secos em abundância e tempo livre, é muito legal ficar em volta de uma fogueira, olhando o fogo. É mais uma das coisas que nos faz entender melhor sobre a realidade só de olharmos para ela. Pensamos sobre o fogo, sobre a matéria, sobre a transformação das coisas. Sobre o calor, sobre a luz. Sobre a noite, sobre as estrelas.

 


Galhos em brasa: luz, cinzas e fumaça.


 

Astronomia.

Quando vim para a Serra, trouxe comigo um telescópio antigo que era do meu avô materno, mas que estava muito sujo e desregulado. É um refrator de 60mm. Eu nem sabia se ele ainda podia ser usado ou se estava completo, mas tentei limpá-lo bem e montá-lo. Uma peça essencial estava quebrada, que é o finder, por onde miramos o telescópio antes de olhar com uma magnificação maior. Sem o finder, ficava muito difícil apontar o telescópio na direção correta, e por isso para achar qualquer coisa eu ficava "varrendo" o céu até encontrar o que estava procurando, o que podia levar um bom tempo. O planeta Júpiter foi muito bom de observar, mesmo com esse telescópio, pois dava pra ver nitidamente um disco claro bem grande, bem diferente de uma estrela que é só um ponto luminoso. Foi possível ver também os anéis de Saturno, o que me entusiasmou bastante.

Eu não tinha bem claro quais eram as proporções de uma constelação, e quando vi pela primeira vez um aglomerado aberto de estrelas (M7 em Escorpião) pensei que fosse uma constelação. Logo aprendi que uma constelação tem proporções muito maiores, e que ela não cabe no visor de um telescópio. Uma constelação é apenas um conjunto de estrelas que foi ligado por povos e astrônomos antigos apenas pela forma que ele parecia formar, enquanto o aglomerado que eu estava vendo era na verdade um conjunto de estrelas quase invisível a olho nú, cujas estrelas realmente estão próximas umas das outras, ao contrário de uma constelação, que é uma ligação fictícia inventada pelo homem.

Depois de algum tempo usando esse telescópio e estudar bastante sobre astronomia, decidi comprar um novo telescópio. Foi bem difícil escolher, pois existem diversos modelos, com diversas possibilidades. Acabei decidindo comprar um telescópio refletor de 200mm, com uma montagem dobsoniana, pois este modelo era o mais barato pensando na relação preço\abertura. Ele não tem nenhum sistema eletrônico de compensação pelo movimento terrestre e nem de procura automática de objetos celestes, mas acho mais divertido procurá-los eu mesmo. Preferi poder ver mais do que encontrar mais rápido e automaticamente.

Durante o primeiro mês em que usei o meu telescópio refletor de 200mm, fiz um registro das coisas que fui observando.
Aqui está a transcrição dele: observações.htm

 


Céu noturno de Maio de 2010, com o grande eucalipto a direita.
Nota-se na parte inferior do céu a luminosidade de São Paulo.
Algumas das constelações visíveis nesta foto, da esquerda para a direita:
Centauro, Cruzeiro do Sul e Carina.


 

Noturno.

Pintei um quadro noturno à luz da Lua cheia, sem usar iluminação nenhuma fora a da Lua, com todas as luzes ao redor desligadas. Isso permitiu que meus olhos ficassem mais sensíveis à sutil luz noturna, só que menos sensíveis ao que via no quadro. Isso teve um efeito interessante, pois senti mais liberdade ao pintar por não ver tão bem o que fazia, e a pintura fluiu muito bem.

Os troncos da esquerda são de uma árvore chamada Embaúba. Ela perdeu a maioria de suas folhas, o que a deixa com uma silhueta interessante também. Os tucanos e outros pássaros vêm comer do fruto dessa árvore.

Uma parte da constelação de Sagitário, em cuja direção se encontra o centro da nossa galáxia, está presente na pintura.

 


Noturno - acrílico sobre tela - 65x78cm - 2009


 

Sagüis.

Hoje vimos um grupo de três Sagüis-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) numa árvore ao lado da casa, e oferecemos banana para eles. Primeiro ficamos mostrando a banana, coloquei-a num galho da árvore, e quando fui distanciar-me para ver se eles pegariam a banana, eles já estavam devorando-a. Sempre vemos grupos dessa espécie, e conhecemos bem seu chamado, que é bem agudo, mas ficamos surpresos em ver que poderíamos chegar tão perto deles. Demos mais um pedaço, e eles o comeram da nossa mão. Li que esse sagüi não é da região, ele fui introduzido, mas se adaptou bem por aqui.

 


Sagüi comendo banana da minha mão


 

Flores.

Considero que aqui há três grupos de plantas que dão flores: as que plantei para decorar o jardim, as plantas da horta que também dão flores, e as que nascem espontâneamente por aí.

Fiquei surpreso com as plantas da horta, pois quando as plantei eu não esperava flores. Foi algo que não levei em consideração e que por isso foi ainda mais agradável. Alguns exemplos são as flores amarelas do Pepino e de toda a sua família, como a Abóbora, e as flores roxas da Ervilha-torta. A exceção é o Girassol, que plantei sabendo o que esperar.

A flor é o orgão sexual das plantas, e pode tomar incontáveis formas, tamanhos, odores e cores. Tudo depende da relação com o animal que vai ajudar a polinizá-la. Com isso em mente é interessante pensar em como elas são belas e agradáveis também para nós, que nada temos a ver com esse processo.

 


Flores espontâneas. Não plantei-as e não cuido delas, e no entanto são as mais abundantes.

 

Mais uma vez vou ter que dizer que "antes de vir para a Serra eu não conhecia quase nada sobre..." as espécies de flores, a frequência em que floriam, os tipos de sementes que se desenvolviam... e agora eu ando por aí assim: "Olha só, as hortênsias começaram a florir!"

Para ver mais algumas fotos de flores daqui, entre em /flores


 

Lua cheia.

As noites de Lua cheia com o céu limpo ou parcialmente limpo são muito prazerosas. A realidade toma uma nova forma, anda-se por aí com uma outra sensação.

 


Foto de longa exposição durante a Lua cheia.


 

Morte.

Quando vivemos em contato com a natureza, rapidamente aprendemos sobre a verdadeira importância e papel da morte e renovação dos seres vivos. Longe de ser um tabu, a morte se torna um processo vital importantíssimo que aprendemos a respeitar e aceitar melhor.

Encontrei um macaco morto no mato, que provavelmente caiu ao pular em um galho podre, e foi uma experiência muito forte observar a decomposição de seus restos e pegar os seus ossos. O cheiro era incrívelmente forte, pude sentí-lo de longe, por vários dias. A quantidade de seres que se alimentaram de seu cadáver é imensa. Seu crânio é realmente incrível e sempre que o vejo me lembro de que há um dentro de minha cabeça, e que ele virá à tona mais cedo ou mais tarde. É bom perceber, realmente entender, que vamos morrer afinal.

Acho que uma das melhores formas de ser enterrado seja diretamente no mato, para servir de alimento para os animais e para as plantas, culminando em florações e frutificações futuras, por exemplo, dando continuidade à vida de uma forma poética e bela, ao meu ver.

 


Pássaro que encontrei morto. É uma fêmea da espécie Vivi.
Dois dias se passaram entre as fotos. No dia seguinte ele não estava mais lá.


 

Erosão

Aqui no terreno vizinho corre uma enorme quantidade de água quando chove, pois toda água que vem de uma grande extensão da avenida asfaltada situada morro acima acaba vindo para cá. Eu já acompanho a erosão desse terreno desde há muito tempo. Quando chove muito, um riacho e cachoeira se formam e já havia um buraco devido às chuvas passadas. Mas as últimas chuvas foram realmente violentas, o que causou que o buraco mais que triplicasse de tamanho no último mês, descobrindo até rochas que estavam bem profundas e derrubando árvores. A erosão está também afetando o meu terreno, e um pedaço considerável de terra desbarrancou bem perto de uma edificação. A maioria das ruas da região, que são de terra, estão praticamente intransitáveis. Fui na prefeitura de Mairiporã fazer uma reclamação, pois na verdade toda essa quantidade de água só vem para cá porque está sendo direcionada. Creio que em breve eles farão um desvio para grande parte dessa água, lá na avenida.

Na cidade de São Paulo a situação é ainda pior porque a água causa grandes inundações. Ambas as situações são causadas pelo asfalto que impermeabiliza o solo. A água deveria ser absorvida pelo solo ou direcionada naturalmente para regiões mais baixas através de córregos e riachos, que na maioria das vezes já estariam lá, somente aumentando de volume.

De qualquer forma, foi interessante observar a força e a erosão causada pela água, que só para quando chega na rocha (nunca para na verdade, água mole em pedra dura...), algo similar à formação de um riacho e cachoeira.

Veja mais fotos da erosão: /buraco

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Com o tempo, a prefeitura acabou fazendo a obra que mencionei, direcionando grande parte da água da avenida para outro lugar, o que melhorou bastante a situação. Mas o problema ainda não foi solucionado definitivamente, visto que a água ainda corre quando chove muito, causando estragos.

 


Buraco erodido pela água


 

Magrela.

Cada um dos meus cachorros tem uma história interessante. A da Magrela é a mais engraçada de todas. Bem no final de 2007 uma cadela apareceu aqui num dia chuvoso com um filhote acompanhando-a. Fiquei espantado em ver um filhote cruzando a mata seguindo a mãe, os dois todos sujos de terra. Dei um pouco de comida pra eles. Nos dias seguintes eles continuaram a aparecer, mas as vezes vinham com uma outra cadela, que tenho quase certeza que é irmã do filhote, mas de uma cria anterior. Fomos viajar, e quando voltamos, depois de uns 10 dias, a tal cadela estava na escada. Pareceu até que estava nos esperando. A mãe e o filhote nunca mais apareceram, mas a irmã nunca mais foi embora. Na verdade nunca demos um nome para ela, por isso ficou "Magrela". Ela é muito magra, parece aqueles cachorros de corrida, e ela realmente corre muito!

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Em Outubro de 2010, assim como chegou, a Magrela sumiu e nunca mais voltou, deixando muita saudade da sua natureza selvagem...

Entre aqui para ver um vídeo da Magrela brincando com a Tutu.

 


A Magrela, cadela da região

Nossos outros cachorros e gatos: Tobi, Tutu e as gatas Branca e Amarela. Obervação: Desde então tivemos mais um gato chamado Miau, mas só a gata Branca continua conosco até hoje, pois tanto o Miau quanto a Amarela foram embora. Tivemos também um cachorro chamado Rock, que era bem tranquilo, mas que ficou doente e morreu em 2012.

 


Pintura digital que fiz do Tobi.


 

Tiê-preto no espelho.

Arrumando a casa, deixei um espelho pra fora junto com outras coisas. Depois de um tempo, sempre que eu passava por esse lugar comecei a notar que um tiê-preto macho estava sempre por lá, e ele voava quando eu chegava.

O Tiê-preto macho é muito bonito, ele é preto-azulado, mas com as partes interiores das asas brancas, que dá pra ver quando ele voa, e li que ele exibe essa parte branca para um macho rival quando competindo. Ele tem um topete vermelho escondido por baixo da penugem da cabeça, que ele só exibe quando ergue as penas (dá pra ver o topete nesta foto). A fêmea é parda.

Tentei descobrir o que é que ele estava fazendo por lá, procurei um ninho, ou qualquer coisa que desse algum sinal de interesse, mas não encontrei nada. Eu via que ele estava sempre perto do espelho, e suspeitei que tivesse algo a ver. Fiquei meio longe esperando ele voltar, e foi muito engraçado descobrir que ele estava mesmo sendo atraído pelo espelho. Ele passava uma grande parte do dia lá, sempre que ia embora ele voltava menos de cinco minutos depois, e observei isso por vários dias, antes de descobrir que era de fato o espelho que o interessava. Fiquei intrigado em saber o que é que o atraía no espelho, acho que ele pensava que era um outro macho. Também já vi Sabiás com esse comportamento.

Depois de tirar algumas fotos, virei o espelho, quebrando o encanto.

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Em outra ocasião, filmamos um Tiê-preto comendo banana. Entre aqui para assistir.

 


Tiê-preto macho enfeitiçado pelo espelho


 

Quadros.

Meu trabalho própriamente dito é a pintura. Venho de uma família de pintores, o que me levou naturalmente para esse caminho. Para ver mais de minhas pinturas, entre no site taminogruber.com ou tamino.deviantart.com

O quadro abaixo é uma pintura que fiz do caminho para a Serra, que passa pelo Parque Estadual da Cantareira. É um caminho muito bonito. Conforme vamos subindo a Serra dá pra perceber como o ar e o clima vão mudando, deixando a cidade quente e poluída para traz.

 


Caminho para a Serra - óleo sobre tela - 0,7x1,0m - 2006


 

Banana-de-macaco (e besouro).

Na primavera, a planta nativa Banana-de-macaco (Philodendron bipinnatifidum) - uma epífita que vive aqui na Figueira - produz flores, e a sua estratégia de polinização é muito interessante. Ela solta um cheiro para atrair besouros, fiz uma pesquisa e li que eles "são atraidos por fragrâncias que são emanadas através de um aumento de temperatura provocado pela oxidação de lipídeos", os besouros se juntam em grandes números sobre a inflorescência. Isso ocorre no começo da noite e durante a mesma, e o curioso é que a flor acaba por fechar com os besouros ainda lá dentro, só abrindo de novo no dia seguinte, garantindo a polinização. Essa noite eram tantos besouros que a "banana" caiu, o que me deu a chance de observá-la melhor. Ela realmente emana calor e um odor muito forte e "quente".

Esse evento tem ocorrido há alguns dias, no meio de outubro de 2010, achei muito legal que tirei fotos desse mesmo acontecimento em 2007, exatamente nestes mesmos dias do ano. Fico o ano inteiro sem ver esses besouros, e só nesses dias eles aparecem.

 


Flor ao abrir, besouros durante a noite, e a flor fechada no dia seguinte.


 

Um Olhar sobre a Cantareira.

Conhemos a ONG Recanta (recanta.org.br) em 2009, e eles nos convidaram para o encontro de ecologia profunda para educadores, para que nós conhecessemos um pouco mais o trabalho deles. Compareceram representantes de muitas escolas e ONGS, o que foi importante para que houvesse uma troca de informações e vivências entre pessoas que vivem e trabalham com educação perto da Serra da Cantareira. Percebi por exemplo que nos limites da Serra situados em bairros mais pobres como a Vila Brasilândia as pessoas têm uma visão muito diferente da Serra devido à violência e a presença de desmanches e outras atividades ilegais que são executadas na mata. A Serra passa a ser vista como algo amedrontador, dificultando a relação desses habitantes com a mesma. Esse é um dos motivos pelos quais o Recanta trabalha com os bairros que circundam a Cantareira, e também com o resto de São Paulo, tentando conscientizar e aproximar as pessoas da Serra, para que a conheçam e descubram o que estava tão perto e não sabiam, trazendo mais qualidade de vida. Acho também importante mostrar a Cantareira para os habitantes da cidade para que vejam o que se perde ao se superpovoar e urbanizar completamente uma região e as suas consequências, para que saibam o que está acontecendo com a Cantareira, que sofre muitas pressões externas e internas... para que ajudem a cuidar tanto da Serra como de São Paulo.

Em 2010 realizamos com a Recanta um projeto para crianças chamado "Um Olhar sobre a Cantareira", no qual primeiro fazíamos uma palestra sobre a Serra da Cantareira, para então levá-los para fazer uma trilha no Parque Estadual da Cantareira, seguida de uma oficina de desenho ou pintura. É muito legal trabalhar com crianças, elas tem a sensibilidade muito apurada e o olhar mais puro, ainda não perderam o fascínio por tudo que os cerca.

 


Aquarelas das crianças

Veja abaixo uma das 5 partes do slideshow que fazia parte da palestra (clique aqui para ver outra parte):


 

Bode.

Durante vários dias, algum animal comeu os pés de milho da nossa horta e pisoteou tudo. Acabamos descobrindo que era um bode. Depois descobrimos que ele estava morando numa "caverna" ao lado do nosso terreno. Fomos até lá, tentamos dar comida para ele e ganhar a sua confiança, mas ele ficou morrendo de medo de nós, tremia muito, urinava e defecava de medo. Quando nos aproximamos demais ele pulou por nós e sumiu. Procuramos por ele mas não o encontramos mais. Não devíamos ter nos aproximado tanto, tínhamos que ter paciência e ganhar a confiança dele aos poucos, durante alguns dias. Estamos esperando que ele volte.

Quando conversamos com as pessoas daqui sobre isso, a reação delas foi a mesma: "fiquem longe desse bode", "ele deve ter sido parte de um despacho de macumba". Há na região encruzilhadas e terrenos com mata onde fazem despachos, e quem sabe ele realmente não sobreviveu a um, daí o medo que sentiu de nós. Não acreditamos nessas coisas, então isso na verdade seria mais um motivo para que nós o acolhessemos, já que ele não tem pra onde ir, e poucas pessoas irão dar uma chance a ele. Mesmo que acreditasse, podia também pensar que ao acolher um animal que precisa de ajuda, as "energias negativas" deixariam de fazer efeito, já que esta "boa ação", carinho e cuidado poderiam quebrar a "negatividade". Sei lá como funciona esse mundo das energias "positivas" e "negativas". Não creio no Bem e no Mal, para mim eles são apenas parte da cultura e emoções humanas.

 


Bode que apareceu aqui em casa


 

Libertos.

No ano de 2007 nos deram uma Agapornis, um periquito africano. Eu não concordo que se compre animais, como pássaros, mas como nos deram, nós aceitamos, com o intuito de deixá-la ir se ela quisesse. Não demorou muito para que ela começasse a voar por aí. Ela acabava voltando, mas um dia não voltou mais. Como ela não é daqui, não sei se encontrou outros como ela, mas pode até ser que sim. Já que é um pássaro tão comum em cativeiro, provavelmente soltam alguns, como fizemos, ou fogem um ou outro por aí.

 


A agapornis Mena. Ficou só um tempinho conosco.

Em 2010 uma pessoa que tinha um hamster mas não podia mais cuidar dele deixou-o conosco. Ele veio num aquário pequeno, tinha aquelas rodinhas de ciclos eternos... Não gostamos de ver um animal preso assim, e logo percebi que ele tinha um instinto forte de cavar. Ao pesquisar sobre a espécie, descobri que era um hamster russo, da sibéria, e que ele realmente cava sua toca e caminhos subterrâneos. Mesmo ele não sendo da região, resolvemos soltá-lo no mato, na pedra, para que pelo menos ele tivesse a chance de viver em liberdade, mesmo que fosse eventualmente comido por algum predador como gatos, cobras ou gaviões, pois nesse caso, morreria vivendo. De qualquer forma foi muito legal conhecer de perto um representante de mais essa classe de animais, os roedores.

 


O hamster que soltamos na pedra.


 

Cristais e "Cristais".

No verão, quando chove muito, a erosão causada pela água revela um grande veio de cristais de quartzo ou feldspato na rua, bem em frente de casa. A rocha predominante aqui na Serra é o granito, uma rocha de origem vulcânica que contém quartzo e feldspato em sua composição. A presença de grandes cristais depende do tempo que levou para a rocha se resfriar, quanto mais lento o resfriamento mais cristais se formam. Já as rochas vulcânicas que resfriam rapidamente, como as que entram em contato com a água do mar, não têm tempo para formarem cristais e por isso são vidráceas e homogêneas, como a obsidiana. O vidro comum fabricado pelo homem é feito de areia (de quartzo) derretida, rapidamente resfriada, portanto suas moléculas ficam "bagunçadas", sem ordem alguma. Já nos cristais, as moléculas se organizam de forma regular, manifestando suas formas características externas dependendo do chamado "hábito cristalino" de cada um, que podem formar cubos quase perfeitos, hexágonos, etc.

Há uma grande confusão relacionada com o "cristal" usado em taças, copos, objetos decorativos e outros utensílios domésticos e os verdadeiros cristais que mencionei. Na verdade o "cristal" das taças não passa de vidro, não tendo nenhuma estrutura cristalina no mesmo. O que confere a maior transparência e outras características próprias desse vidro é a presença de chumbo, um metal muito tóxico. Quanto maior a quantidade de chumbo nas taças, que vai geralmente de 10% a 24%, mais "puro" o "cristal" é considerado. Em objetos decorativos a quantidade chega a 50%. Acho inconsequente utilizar um mineral tóxico na fabricação de utensílios usados na alimentação. Ao pesquisar se o chumbo pode de fato contaminar os alimentos consumidos nestes "cristais" achei várias referências que diziam que se um líquido relativamente ácido como o vinho ficar um certo tempo numa taça deste tipo, pode sim haver a contaminação.

 


Cristais de quartzo ou feldspato expostos pela chuva


 

Obras.

Desde que chegamos aqui fizemos várias melhorias nas casas e no terreno. Limpamos, arrumamos, cortamos a grama e o mato, pintamos paredes, refizemos toda a parte elétrica, trocamos torneiras, consertamos privadas, limpamos as caixas d´água, arrumamos as portas, janelas e telhados, podamos algumas árvores, plantamos outras, mandamos muita coisa embora e fizemos uma pequena reforma em uma das edificações do terreno..

O Fernando, um amigo meu, está construindo uma casa no Bonete, no outro lado da Ilha Bela. Ele está constuíndo uma casa bem planejada, num lugar afastado de toda a poluição da cidade, com muito mais qualidade de vida. Fico imaginando como deve ter sido difícil construir do zero, ainda mais pelo fato de que lá não há acesso por estradas, só por barco. Ele está fazendo um blog sobre a obra, que foi o que me inspirou em começar a escrever sobre as coisas que tenho vivido aqui também. Dêem uma olhada: obra.100linhas.net

 


Reforma da casinha.


 

Aquarela.

Tenho pintado aquarelas, acrílicos e óleos. As aquarelas são as que mais tem despertado meu interesse pois são bem delicadas e suaves, e sinto que de uns tempos pra cá dominei bem a técnica, trabalhando com bastante calma e paciência. É muito bonito espalhar o pigmento em uma área previamente molhada, ele vai se espalhando e tomando uma forma bem natural e orgânica. Também tenho tomado cuidado pra não saturar demais, não trabalhar mais do que devo em uma aquarela, pois aí a transparência e sutileza vão se perdendo.

 


Natureza morta em execução.


 

Cavalete.

Em 2012, ano de eleição, aconteceu um evento chamado "Cavalete Parade", no qual todos eram convidados a fazer uma intervenção artística nos cavaletes de campanha política e levar a obra resultante às ruas, uma ideia que eu já tinha tido, mas que até hoje não tinha colocado em prática. A ideia se espalhou por várias cidades brasileiras, tomando proporções consideráveis.

Acho ridícula a forma como as campanhas políticas funcionam. Elas se baseiam somente em conceitos de publicidade, não tendo nenhuma relação com a política que se faz de fato. É uma campanha superficial que visa nos levar a votar no rosto que mais nos agrada, que achamos mais simpático, entre outras artimanhas banais, como deixar uma musiquinha insuportável na nossa cabeça. Esse vídeo deixa isso bem claro: Como fazer uma propaganda eleitoral

Não acredito que devamos votar no partido e candidato "menos ruim", por isso sou a favor do voto nulo ou da abstenção, nos quais manifestamos nossa insatisfação em relação ao sistema político. Em São Paulo, no primeiro turno da eleição para prefeito, somando o número de votos (7.026.448) com o de abstenções (1.592.722), obtemos o número de 8.619.170 eleitores. Somando os votos nulos (516.384), brancos (381.407) e abstenções (1.592.722), temos o total de 2.490.513 eleitores, ou seja, 28,89% dos eleitores da cidade, enquanto que o candidato mais votado, José Serra, obteve 1.884.849 votos, de apenas 21,86% dos eleitores. A conclusão que chego é de que grande parte da população não queria nenhum dos candidatos como prefeito, e que essa foi a verdadeira vitória nessas eleições, a da insatisfação. Enfatizar esse movimento e levá-lo adiante, para mim, poderia ser o estopim de uma mudança política significativa.

Coloquei o meu cavalete aqui na Serra da Cantareira, em uma avenida movimentada.

 


Cavalete que fiz em meio aos de políticos da Serra.


 

Hospedeira.

Um dia vi um ser estranho se mexendo e fui ver de perto o que era. Para minha surpresa vi uma vespa vermelha carregando uma aranha bem maior do que ela. A aranha estava paralizada pelo veneno da vespa, mas ainda estava viva. Vi em um documentário que as vespas colocam os seus ovos em hospedeiros como essa aranha, e assim que as larvas eclodem dos ovos, comem o hospedeiro, que foi mantido vivo mas paralizado por todo esse tempo. As vespas evoluiram para grupos sociais de marimbondos e formigas que não tem mais esse comportamento, pois desenvolveram outras formas de alimentar as larvas, coletivamente.

 


Vespa que capturou uma aranha.


 

Aprendizados.

Com o tempo, venho aprendendo e refletindo sobre as coisas que acreditava, relacionadas à natureza, meio-ambiente e impacto humano. É sempre um choque entre o que nos foi ensinado, o que idealizamos e o que observamos e aprendemos na prática. O entendimento da nossa relação com a natureza vai mudando de perspectiva e vemos como a natureza age e se transforma de forma imprevisível e inesperada, conforme vamos tentando entender o nosso papel nesse sistema. Tento e gostaria de não ter tantas crenças rígidas e pré-estabelecidas, mudo bastante de opinião conforme vou aprendendo, e até me sinto tolo e ingênuo muitas vezes, mas acho que é inevitável que seja assim. O mito da "natureza inalterada" é uma das coisas que mais estou tendo que trabalhar, assim como o tema da sustentabilidade e estilo de vida. A intervenção humana na natureza pode se dar de diversas formas, por isso temos que ter cuidado com idéias que coloquem o homem sempre no papel de vilão ou de salvador, como fazemos frequentemente.

 


Aquarela que fiz de uma árvore daqui


Essa mesma árvore caiu devido às chuvas constantes no final de 2009

Há muita coisa que não sei, estou tentando aprender na prática o que acho importante, mas sinto que temos muitas limitações psicológicas e culturais. Por isso acabamos fazendo o que sabemos fazer, o que achamos melhor fazer, ponderando sobre cada situação. Acabamos também por fazer coisas que não queremos, mas não dá pra sair tudo do nosso jeito. Acho que nos ensinaram a querer tudo da nossa forma, e também a querer confortos desmerecidos e desnecessários. Desde que viemos para cá começamos a fazer tudo nós mesmos, incluindo varrer e limpar, lavar roupa, fazer comida, cuidar dos bichos, fazer pequenos concertos e reparos etc, mas são coisas que decidimos fazer e que fazemos com prazer. No começo nem tínhamos máquina de lavar e lavei minha roupa no tanque por alguns meses (depois me deram uma máquina antiga). Também cuido da grama, do mato e das árvores. Gosto muito de aprender a fazer as coisas eu mesmo ao invés de pagarmos outros para fazê-lo, ocupamos o nosso dia com coisas mais práticas e "reais" dessa forma, precisamos de menos dinheiro e usamos o nosso corpo muito mais.

Uma pessoa que nasce em uma cultura diferente, sem tanta influência da cultura global pode ter uma vida que consideraríamos uma de "privações", sem sentir que está se privando de nada. Já nós, mais "civilizados", se tentarmos viver como eles provavelmente não vamos conseguir, principalmente por não termos os conhecimentos necessários e nem o costume de viver daquela forma. Por isso, se quisermos mudar nosso estilo de vida radicalmente de uma hora para outra, podemos enfrentar dificuldades. Acredito em mudanças, mas não da noite para o dia. São pequenos passos que são dados aos poucos, caso contrário a mudança é inconsistente e insustentável.

Não acho que devemos privar-nos das coisas que gostamos e (achamos que) precisamos, mas sim questioná-las, pensar no porquê de gostarmos ou precisarmos delas, sabermos mais sobre como chegaram a nós (como foram produzidas), e percebermos se elas realmente fazem bem a nós mesmos, aos outros, e a tudo que nos cerca. Com isso em mente adotei uma dieta vegetariana e parei de comprar e consumir produtos de origem animal, por exemplo. Isso não quer dizer que eu não gostava de comer queijo ou peixe, mas fiz uma escolha com base nas informações que tenho sobre a origem desses produtos e a exploração dos animais, como são tratados, manipulados e escravizados pela indústria. Quanto mais sei sobre as coisas que consumimos, mais percebo que não concordo com os meios de produção, a extração de matéria-prima, o transporte através de longas distâncias, as embalagem desnecessárias e propagandas impositivas relacionadas aos produtos. Não faz sentido consumir e pagar por algo que achamos errado, mas ainda assim o fazemos. Damos nosso dinheiro (que é fruto do nosso trabalho) para esses determinados fins, financiando esse sistema, fazendo-nos responsáveis pelo que compramos e criando cumplicidade. Ainda não sei ao certo como sair desse paradoxo, pois a sustentabilidade é uma coisa bem utópica e difícil de se alcançar para qualquer um, mas podemos tentar das passos nessa direção.

A minha decisão de fazer esse site foi exatamente para compartilhar com os outros as coisas que fui aprendendo, assim como o deslumbramento que sentia e as dificuldades que fui tendo, pois acho que muita gente pode se sentir como eu, e muitas vezes é difícil tomar a iniciativa de sair desse sistema e tentar criar uma outra forma de se relacionar com o mundo. É difícil explicar minhas motivações em vir para cá, mas posso dizer que pra mim é um prazer conseguir me independer um pouco da sociedade capitalista e viver de forma minimamente mais independente. Já faz uma boa diferença em como me sinto.


 

Violência.

Durante uma noite de outono, nossos cachorros lutaram com um Quati (talvez fosse um bando) e na manhã seguinte estavam em um estado crítico: o Tobi que é o maior deles, um pastor, estava com um rasgo muito grande e fundo no focinho, a Tutu (de médio porte) estava com 5 rasgos também profundos no pescoço, e o Rock (também de médio porte) estava com um buraco imenso no pescoço e havia sangrado a noite inteira, estava à beira da morte. Chamamos uma veterinária que levou o Rock imediatamente, costurou veias e artérias que haviam sido rompidas e o deixou-o no soro por um bom tempo. Ela só deu pontos no Rock neste local específico e deixou o rasgo aberto, ela disse que era melhor não costurar pois era muito fácil infeccionar em casos como esse, de briga com animais selvagens. Um Quati estava morto, mas por incrível que pareça ele não tinha machucados no corpo. Ele tinha dentes bem pontudos e uma garra enorme, que usa para cavar o solo à procura de alimento e com a qual se defendeu dos cachorros.

Uma vez vimos dois Bugios machos brigando, e foi nítido como o mais forte acuou o mais fraco e o fez descer ao solo, ficando assim vulnerável ao ataque dos cachorros, que chegaram a atacar, mas como estávamos próximos, conseguimos parar a briga. Os cachorros também aparecem as vezes com espinhos de Ouriço (parecido com um porco-espinho) na boca, que são muito difíceis de tirar, esse animal eles não conseguem mesmo matar. Mas já mataram um Bugio, um Sagui, e mais de um Gambá. É muito difícil controlar esses instintos dos cachorros. No fundo, desde que viemos para a Serra, tentamos controlar eles somente no que era essencial, deixando-os serem como são. Ficamos muito chateados de que eles ataquem animais silvestres, e por esse e outros motivos, de uns tempos pra cá, temos tentado controlá-los mais.

Desde que o Rock chegou aqui em casa vindo de São Paulo, a Tutu "encanou" com ele e eles já brigaram feio mais de uma vez. Ele é castrado, então acho que por isso o Tobi não se incomodou, mas como a Tutu é do mesmo tamanho que o Rock (eles são irmãos do mesmo pai) ela competiu com ele. Depois de um tempo ele aprendeu a se submeter quando ela "se cresce pra cima dele" e eles nunca mais brigaram feio.

Desde que nós começamos a criar galinhas, os cachorros estavam se dando bem com elas, mas há pouco tempo mataram nosso galo. Foi horrível encontrá-lo morto, mas o interessante é que nós tínhamos dois frangos machos crescendo, e somente no dia seguinte à morte do galo um dos frangos cantou pela primeira vez. Me lembrei da frase inglesa "The King is dead, long live the King" na qual quando o rei morre ele é logo substituído por um novo. Eu estava preocupado e já tinha me perguntado o que é que eu iria fazer com 3 galos já que eles brigam pela supremacia do território e pelas fêmeas, mas ao mesmo tempo queria ver o que é que acontece naturalmente. Com o galo adulto morto, um dos dois franguinhos seria seu sucessor. Desde que são pequenos esse dois franguinhos já brigam, mas agora que estão quase adultos a tendência é que as brigas piorem. Um dos galinhos já estava se mostrando mais agressivo, dominante, e foi o primeiro a cantar, mas agora o outro também está começando. As galinhas jovens estão também chegando à maturidade, e logo vão começar a botar ovos.

Esses são alguns exemplos de agressividade, violência, submissão e morte que temos lidado ultimamente, e com os quais temos aprendido a lidar. Um dos motivos pelo qual homem se gaba de "não ser um animal" é por tentar controlar esses impulsos violentos, mas na verdade eles não são controlados, visto o que ocorre diariamente entre os homens. A hierarquização também está presente de forma muito forte na sociedade humana, e embora muitos de nós critiquemos a mesma, fica a pergunta: será que conseguimos controlar esses impulsos?

 


Galo cantando. Esse galo morreu em abril de 2011.


 

Coisas que não dá pra fazer muito nas cidades:

  • Comer alimentos frescos direto do pé
  • Fazer fogueira
  • Jogar restos orgânicos no mato
  • Ver estrelas
  • Dormir sem barulho
  • Ter mais espaço
  • Observar dezenas de espécies de pássaros
  • Ver macacos, quatis, gambás e ouriços selvagens
  • Andar descalço
  • Criar galinhas
  • Respirar um ar mais limpo
  • Aprender sobre plantas e animais no dia-a-dia, na prática
  • Mexer na terra, plantar
  • Não ficar sabendo de tudo que acontece no mundo
  • Não ter que se preocupar com carros

 


Sob a luz da Lua.


 

Para ver mais fotos tiradas por nós na Serra:

 

 


 

Lúcio Tamino | luciotamino@gmail.com | facebook.com/luciotamino