Serra.

Estou criando este espaço para compartilhar coisas sobre minha estadia na Serra da Cantareira.
Coisas que vi, vivi e aprendi aqui.

Pássaros | Observação | Manhã | Horta | Maitaca | Ciclos | Floração | Cachoeira | Metamorfose | Galinhas | Frutas | Bugio | Pepino | Figueira | Daninhas | Fogueira
Astronomia | Noturno | Sagüis | Flores | Lua cheia | Morte | Erosão | Magrela | Tiê-preto | Quadros | Agapornis | Obra | Aquarela | Hospedeira | Privações | Coisas

Últimas atualizações:

21/01/10
- nova entrada sobre aprendizados e privações

30/01/10
- nova entrada sobre galinhas caipiras

 


 


 

Pássaros.

O mais engraçado é que embora eu sempre gostei de pássaros, eu nunca havia aprendido muito sobre eles.

Antes de começar a vir para cá, no meio de 2007, eu não sabia distinguir quase nenhuma espécie, o que pra mim parece um absurdo hoje, pois mesmo o Sabiá-laranjeira e o Bem-te-vi que eu conhecia de nome e já tinha visto muitas vezes, eu não sabia ligar o nome ao pássaro. Isso foi ainda mais incrível quando finalmente identifiquei o canto de primavera do Sabiá-laranjeira, que é muito comum em toda São Paulo a partir de Setembro. Percebi que nunca tinha dado muita atenção a este canto, embora sem dúvida já havia escutado antes. É um canto lindo e muito complexo, cheio de variações, e que só agora comecei a notar e apreciar realmente, sabendo quem é o seu autor.

O que fez muita diferença foi que ganhei dois livros que me ajudaram muito, um deles é um guia de identificação de pássaros na grande São Paulo, e o outro um livro imenso chamado Ornitologia Brasileira. O guia é ótimo para identificação, e o outro para saber mais sobre determinada espécie.

Identifiquei mais de 60 espécies, e embora em algumas delas eu posso ter me equivocado, tenho certeza sobre a maioria, pois varias espécies eu vi muitas vezes, aprendi bastante sobre sua aparência, hábitos, canto... mas hoje vi um pica-pau que não consegui identificar.

O que tem me ajudado também é um site chamado xeno-canto.org no qual ao colocar o nome da espécie podemos ouvir varias gravações de seu canto. Assim ficou mais fácil identificá-los, e é até possível atraí-los tocando a gravação. Consegui atrair um Pitiguari, que canta frequentemente por aqui, até ele chegar bem próximo de nós, a poucos metros. O canto dele é este aqui: cyclarhis_gujanensis.mp3

Para ver a lista de pássaros que identifiquei até agora, entre aqui: passaros.htm

 


Casal de Saí-Azul que fotografei em 2007. O macho é o azul.


 

Observação.

Acabei de pintar um quadro de observação de uma cena aqui da Serra. Pintava sempre no mesmos horários, para pegar a mesma luz. É legal observar a mesma cena diáriamente, começamos a notar cada vez mais coisas, e o olhar fica cada vez mais apurado. A beleza da natureza sempre me impressiona bastante quando me disponho a realmente observá-la. Levei bastante tempo pra terminar, e na verdade podia ter continuado pintando-o indefinidamente.

Estou preparando uma exposição para o fim de Junho e fiz esse quadro especialmente para a exposição. Agora comecei outro, só que desta vez em óleo.

A árvore do centro é uma ameixeira, e ao lado dela há uma mexeriqueira, que está dando muitos frutos.

 


Serra - 0,7x1,0m - acrílico sobre tela - 2009


 

Manhã.

 

 


O amanhecer


 

 

Horta.

Comecei a fazer uma horta na primavera de 2007. Depois de escolher o local, capinei dois canteiros e adubei com terra preta tirada do mato. Nestes primeiros canteiros plantei: Tomate, Pepino, Brócolis, Ervilha-torta, Cenoura, Rúcula, Ervilha, e ervas, como Manjericão e Tomilho.

Antes de vir para cá, eu nunca tinha tido experiência com plantio, e na verdade acho que nunca tinha visto um pé de pepino, de tomate... cada planta que plantava no começo me trazia novas descobertas, como por exemplo o fato de que o pepino, o melão, a melancia, a abóbora, e muitas outras, são todos da mesma família e por isso as plantas se parecem muito. Ou que as ervilhas são trepadeiras, mas só se agarram em galhos finos com muitas ramificações, enquanto a vagem também trepa, mas se enrola ao invés de se agarrar.

Com o tempo fui capinando novos canteiros, o que cansa bastante e deixou minhas mãos bem calejadas. Cada época que vai passando traz novas "safras", e embora seja uma horta modesta e eu ainda esteja aprendendo, sempre dá pra comer algo dela, o que nos dá muito prazer, pois não preciso nem dizer como é bom comer um alimento que nós mesmos plantamos e cuidamos, fresco, sem agrotóxicos e pesticidas, sem mão-de-obra externa, sem transporte, sem mercado... sem dinheiro.

 


A horta depois de alguns meses. Pés de pepino trepando em bambus.

 

Alguns pés, como os de pepino e tomate deram super certo, e eventualmente deram muitos frutos, e bem grandes. A rúcula dá bastante, fazíamos salada com ela sempre. O brócolis demorou um pouco mas acabou florescendo. O manjericão virou uma pequena árvore, e acabei transplantando-o para outro local.

Plantas que plantei e deram certo: Tomate, Pepino, Rúcula, Agrião, Brócolis, Couve-flor, Ervilha-torta, Ervilha, Cebola, Cenoura, Couve, Repolho-roxo, Alface, Vagem, Espinafre, Mostarda, Milho, Couve-chinesa, Cebolinha, Manjericão, Orégano, Tomilho, Pimentas, Capim-cidreira, Hortelã, Alfavaca, Alecrim...

 


Produtos da nossa horta: Tomate, Ervilha, Pepino e Cenoura


 

Maitaca.

Estávamos embaixo de uns pinheiros perto de um lago e nossa cadela que estava conosco (a Magrela) pegou uma maitaca. Conseguimos tirar dela rapidamente e a maitaca estava super agressiva, gritando muito, e mordendo bem forte quando eu tentava ajudá-la para ver se ela não tinha se machucado muito. Mas conforme fui observando-a, percebi que na verdade era um filhote que caiu do ninho, o que me surpreendeu já que era bem grande, forte e agressiva. Fiquei admirado em como ela era arisca. Já que ela caiu muito perto do lago e como ela não voava ainda e outros animais poderiam pegá-la, acabei decidindo levá-la e criá-la até que ela possa voar. Ela no começo me mordeu bastante, minhas mãos ficaram todas mordidas, mas agora ela já está bem mais calma. Gosta até de ficar no nosso ombro. Quando tentei alimentá-la no começo, ela não sabia comer sozinha, acho que a mãe ainda regurgitava alimento para ela. Compramos uma seringa para tentar dar uma papa de frutas amassádas misturadas com água, mas ela relutou um pouco a comer. Foi difícil no começo, mas agora ela já está comendo sementes de girassol, banana, abacate, mesmo sem a seringa, que tenho usado agora só para dar água. E tudo isso em apenas três dias!

Logo identifiquei a espécie. É uma Maitaca-verde, ou Maitaca-de-Maximiliano (Pionus maximiliani). Eu já havia observado essa espécie antes por aqui, eles passam gritando, geralmente sozinhos ou em casais. Eles tem uma penugem bem escura, meio cinza, na parte superior do corpo (mas o filhote ainda não). O modo deles de voar é bem carácteristico, voando com as asas abaixo do corpo, então é muito fácil indentificá-los em vôo, mesmo à distância.
Se você não sabe a diferença entre uma "Maritaca" e uma "Maitaca", entre aqui: sobre-nome-popular-maritaca

Para ler o que aconteceu com ela depois disso, entre aqui: maitaca.htm

 


Uma foto dela assim que chegamos em casa.
Ela ainda estava muito assustada.


 

Ciclos.

Como já faz mais de um ano que estamos aqui, já dá pra notar os ciclos começando a se repetir. Isso é outra coisa que não se nota nem se sente muito vivendo numa cidade grande.

Um dos primeiros ciclos que se repetiu foi o das estrelas. Quando comecei a vir, Júpiter estava bem alto na direção das constelações de Escorpião e Sagitário. O Escorpião é uma constelação bem fácil de identificar, com o rabo do escorpião bem marcado com estrelas fortes. Logo em seguida essas constelações e o planeta Júpiter sumiram por trás das árvores a oeste e ficaram meses sem aparecer mais. Durante este ano, quando eles reapareceram, foram nascendo baixo no leste, subindo mais a cada mês, até chegar no mesmo ponto em que estavam no ano passado quando comecei a vir, só que este ano eu comprei um telescópio de 200mm, o que fez tudo ficar bem mais interessante. O centro de nossa galáxia está na direção de Sagitário, portanto existem regiões com muitas nebulosas e aglomerados estrelares, e o planeta Júpiter é muito bom de observar, pois além de ser o maior planeta, suas quatro maiores luas estão sempre em posições diferentes ao serem observadas diáriamente.

As árvores frutíferas e as flores são outros exemplos de ciclos que vi, pois as árvores e certas plantas florescem e dão fruto mais ou menos na mesma época do ano. A amora por exemplo floresceu e deu frutos pouco antes do início da primavera, e como descobrimos por perto uma amoreira muito grande e carregada, comemos muita amora. Como aqui também tem Goiaba, Ameixa, Abacate, Pitanga, Mexeriquinha, Limão-cravo, Maracujá e Banana, pude observar muitas florações e produção de frutos.

 


Conjunção entre Júpiter e Vênus, com a lua acima.
Fotografado daqui, em Fevereiro de 2008,
pouco antes do nascer do Sol.


 

Floração.

Todo inverno, o Mulungu em frente de casa perde todas as suas folhas e floresce, com suas lindas flores vermelhas, que atraem muitos beija-flores. Numa época chuvosa, pintei com a água da chuva uma aquarela da árvore florindo.

 


Mulungu florido - aquarela e água da chuva sobre papel - 24 x 32 cm - 2009


 

Cachoeira.

Uma das únicas coisas que eu sentia falta por aqui era uma cachoeira, por isso foi muito bom quando o Eduardo (o irmão da Jú) descobriu uma aqui perto. Ela é bem escondida, temos que entrar numa trilha que as vezes some, mas que o Eduardo viu em um dia em que ela estava mais aberta. Quando entrei pelas primeiras vezes na cachoeira, como fazia tempo que não entrava em uma, senti aquele choque forte da água gelada. Agora não estou mais sentindo isso, estou acostumando, e nos dias quentes é muito bom ir até lá se banhar. É gostoso também ficar ouvindo a água, e pisar na pedra. Pensar na água que leva a terra e cava a rocha.

É a água desse riacho que abastece a região, depois de ser tratada. Achei isso interessante, pois eu não fazia idéia de onde vinha a água da minha torneira, e agora eu tomo banho nela, na fonte.

Ao lado da cachoeira tem uma casinha abandonada.

 


Cachoeira aqui perto. Essa é uma colagem de várias fotos.
Na foto: Jú, Tobi, Magrela e Tutu


 

Metamofose.

As borboletas colocam dezenas de ovos nas rúculas que planto. Para minimizar o impacto que isso teria em minha horta, decidi tirar as folhas com ovos, e alimentar eu mesmo as lagartas, tentando dar outros tipos de folhas. Acabei não encontrando nenhuma folha que elas gostassem, e acabei dando rúcula e agrião mesmo para elas comerem. Depois de um tempinho elas entraram em estágio de pupa, e finalmente emergiram como borboletas.

 


Lagarta, Crisálida e Borboleta


 

Galinha caipira.

Conhecemos um velhinho que mora por aqui que cria galinhas "caipiras". Quando o visitamos, ele nos disse que iria mudar-se daqui e que iria vender suas galinhas antes de ir. Uma das galinhas estava com 9 pintinhos.

 

Sempre achei que uma galinha "caipira" era uma galinha criada solta, sem nenhuma relação quanto à espécie. Já pelo que me disseram por aqui, galinha "caipira" é uma espécie de galinha, assim como a galinha carijó, preta, índia, rodes...

Nós não comemos ovos há muitos anos, por não gostarmos da produção industrial de frangos e ovos. Por muito tempo não sentimos a necessidade de voltar a comê-los, mas de uns tempos pra cá percebemos que eles são sim um bom complemento para a alimentação e poderiam fazer parte da nossa, se criássemos as galinhas nós mesmos. Achamos que a relação mais direta entre nós e os animais acaba com os maiores problemas relacionados à alienação moderna quanto aos alimentos de origem animal. Ao criarmos ou caçarmos animais nós mesmos, criamos uma relação direta entre nós e o animal. Isso para mim representa um maior respeito, consciência e responsabilidade em relação a eles e ao que comemos. Não iremos comer as galinhas, pois não as mataria, mas caso eu quisesse comê-las, acho que nós mesmos deveríamos matá-las.

Começamos então a construir um galinheiro feito de bambu. Quando voltamos à casa do velhinho, ele nos vendeu a galinha com os pintinhos, que já eram somente 4 pois muitos animais como gaviões e gambás acabaram comendo-os. Dois dos pintinhos tinham o pescoço pelado, que é uma característica de certas galinhas caipiras. Fiquei muito entusiasmado com eles, pois se alimentam praticamente sozinhos, ciscando o dia inteiro (eu só dou um pouco de milho) e por sorte meus cachorros e gatos se deram bem com eles. Mas uma noite, eles foram atacados por algum animal noturno (acho que foi um gambá) e 3 dos pintinhos morreram, o que nos deixou muito tristes, demonstrando também as dificuldades da responsabilidade que assumimos. O pintinho que sobrou está crescendo.

 


A galinha com seus quatro pintinhos


 

Frutas.

Eu nunca comi tantas frutas como tenho comido agora.

Os abacateiros daqui dão bastante, em certas épocas chegamos a comê-los todos os dias. O último cacho que tirei das Bananeiras deu mais de 200 bananas! As pitangueiras acabaram de dar e as goiabeiras, mexeriqueiras e o limoeiro já estão produzindo frutos. Aqui também tem ums pés espontâneos de morangos selvagens, que são muito gostosos.

No clube perto de casa descobri uma Cerejeira, e como eles as vezes me deixam entrar, comi muitas. Lá também tem um Abacateiro incrível que dá um abacate que fica com a casca negra quando amadurece e com um caroço bem pequeno. Fui lá diversas vezes pegar abacate e voltei com tantos que me mal aguantava subir a ladeira até aqui. Lá tem boas pitangueiras também, e lá perto também tem um ótimo pé de limão-cravo que colhi bastante pra fazer suco.

Plantei no meu terreno uma Jabuticabeira que está indo bem, e tenho várias mudas de outros tipos de árvores, algumas que plantei o ano passado, como uma Araucária (que dá o Pinhão) que plantei Junho passado e está crescendo bem rápido. Aqui tem também um grande pé de Pinha, mas ele não está muito produtivo, tenho que descobrir porque. Plantei também muitos pés de Maracujá e Maracujá-doce que só estão começando a florir agora, o que estou esperando a mais de um ano pois o Maracujá tem uma flor linda, vamos ver se dá uma quantidade razoável de frutos também.

Outras mudas que plantei de árvores frutiferas são: pitangueiras, ameixeiras, pé de romã, cerejeiras, pés de acerola, laranja, mamoeiros, pé de lichia e de jambo. Nem todas estão indo muito bem, mas estou tentando.

 


Abacates de um dos pés daqui.


 

Bugio.

Há na região uma espécie de macaco chamado Bugio. Ele é grande, e tem um grito que pode ser ouvido a quilômetros de distância. Nas primeiras vezes que ouvi esse grito, achei que era algum tipo de maquinaria ou algo parecido, de tão estranho. É um grito bem gutural, rouco, e muito alto. Eles já passaram bastante por aqui, vinham comer ameixas e comem também as folhas das árvores. Meus cachorros ficam latindo para eles, e mais de uma vez eles urinaram e defecaram lá de cima, como algum tipo de defesa ou demarcação de território. Eles pulam de árvore em árvore, as vezes de forma bem arriscada, fico impressionado pelos longos saltos que dão. Por isso não foi de se surpreender que encontrei um deles morto no mato, com um galho quebrado perto dele. As vezes vemos mães passando com o filhote nas costas.

 


Bugio na árvore em frente de casa.


 

Pepino.

Primeiro, ele brotou. Seguiram-se as primeira folhas. Logo ele soltou os fios para trepar, trepou nos bambús, floriu com flores femininas e masculinas, as masculinas polinizaram as femininas (as que já tinham um pepininho) e então os frutos cresceram.

 


Do pé à mão.


 

Figueira.

Aqui há uma árvore que dá um fruto que atraí um número impressionante de diferentes espécies de animais: bandos de Saíra-lagarta, Sanhaços-cinzentos, Tiês-pretos, Tucanos-de-bico-verde, Sabiás, Cambacicas, Jacuguaçus, Sagüis, Bugios, Esquilos, Morcegos... Vi também na árvore um Pica-pau-anão e um Bico-virado-carijó, mas estes estavam em busca de insetos. Até eu experimentei a frutinha e achei-a bem gostosa.

A árvore é da família das Moráceas (Moraceae), do gênero Ficus. Quem me deu essa dica foi uma amiga minha, a Sofia. Depois de pesquisar um pouco mais acabei descobrindo que é uma Ficus insipida. Li sobre o gênero Ficus e aprendi umas coisas bem interessantes. Existem centenas de espécies de Ficus. É um gênero distribuído pelo mundo inteiro, cujos frutos alimentam populações muito variadas de animais.

Algumas delas, como a Insipida começam como trepadeiras, trepam em outras árvores e, com o tempo, acabam matando a árvore hospedeira, por isso as chamam também de Figueira-mata-pau. Há uma outra árvore aqui que percebi que havia feito isso mesmo, pois no seu centro havia um espaço vazio com restos de madeira podre, dava pra ver nitidamente que ela havia trepado e matado uma outra árvore. A trepadeira Unha-de-gato também é do gênero Ficus (Ficus pumila), mas seus figos não são comestíveis. Como ela é de origem asiática, somente lá existe uma vespa que poliniza seus frutos. Aqui isso simplesmente não acontece, deixando todos seus figos estéreis, o que nem é tão ruim pois ela nem deveria estar aqui pra começar.

 


Pequenos figos que alimentam uma ampla variedade de animais.


 

Daninhas comestíveis.

Estou começando a aprender sobre as plantas locais espontâneas, as "ervas daninhas", que são comestíveis. Estou gostando muito de aprender sobre elas, pois elas formam um ótimo complemento para a horta, e há uma grande abundância delas. Dá uma satisfação muito grande, um sentimento de independência e auto-suficiência, fora o fato de que são gostosas e frescas. É claro que eu tenho muito cuidado ao comer plantas que não conheço, por enquanto só uso quatro espécies que identifiquei com segurança.

A Taioba é uma das que assim que aprendi a reconhecer comecei a usar bastante, principalmente pelo fato de que além das folhas grandes, sua raiz é uma batata enorme, que também é comestível e parece mesmo com batata. Peguei alguns pés por aí e plantei no meu terreno, então agora tem bastante Taioba por aqui.

O Major-gomes e as folhas da Taioba usamos como se fosse Espinafre. Com a Capeba aprendemos uma receita de charutos recheados com carne de soja, que ficaram muito bons. Outra que tenho começado a usar é a Tanchagem.

 


Plantas locais comestíveis: Taioba, Major-gomes e Capeba


 

Fogueira.

Fazer fogueiras à noite é uma coisa ancestral, mas que estamos deixando de fazer cada vez mais. A noite nas cidades nem é mais escura, e realmente não é nada viável acender uma fogueira na cidade. Mas em lugares mais escuros, com galhos secos em abundância e tempo livre, é muito legal ficar em volta de uma fogueira, olhando o fogo. É mais uma das coisas que nos faz entender melhor sobre a realidade só de olharmos para ela. Pensamos sobre o fogo, sobre a matéria, sobre a transformação das coisas. Sobre o calor, sobre a luz. Sobre a noite, sobre as estrelas.

 


Galhos em brasa: luz, cinzas e fumaça.


 

Astronomia.

Quando comecei a vir para a Serra, trouxe comigo um telescópio antigo que era do meu avô materno, mas que estava muito sujo e desregulado. É um refrator de 60mm. Eu nem sabia se ele ainda podia ser usado ou se estava completo, mas tentei limpá-lo bem e montá-lo. Uma peça essencial estava quebrada, que é o finder, por onde miramos o telescópio antes de olhar com uma magnificação maior. Sem o finder, ficava muito difícil apontar o telescópio na direção correta, e por isso para achar qualquer coisa eu ficava "varrendo" o céu até encontrar o que estava procurando, o que podia levar um bom tempo. O planeta Júpiter foi muito bom de observar, mesmo com esse telescópio, pois dava pra ver nitidamente um disco claro bem grande, bem diferente de uma estrela que é só um ponto luminoso. Foi possível ver também os anéis de Saturno, o que me entusiamou bastante.

Eu não tinha bem claro quais eram as proporções de uma constelação, e quando vi pela primeira vez um aglomerado aberto de estrelas (M7 em Escorpião) pensei que fosse uma constelação. Logo aprendi que uma constelação tem proporções muito maiores, e que ela não cabe no visor de um telescópio. Uma constelação é apenas um conjunto de estrelas que foi ligado por povos e astrônomos antigos apenas pela forma que ele parecia formar, enquanto o aglomerado que eu estava vendo era na verdade um conjunto de estrelas quase invisível a olho nú, cujas estrelas realmente estão próximas umas das outras, ao contrário de uma constelação, que é uma ligação fictícia inventada pelo homem.

Depois de algum tempo usando esse telescópio e ler bastante sobre astronomia, decidi comprar um novo telescópio. Foi bem difícil escolher, pois existem diversos modelos, com diversas possibilidades. Ao pesquisar, descobri que quanto maior a abertura do telescópio, mais luz ele capta, e que isso não tem muito a ver com a magnificação. Aquela velha pergunta "Quanto esse telescópio amplia?" é enganosa, porque na verdade você pode usar qualquer telescópio com uma grande gama de magnificações, mas dependendo da abertura você verá mais ou menos detalhes, ou simplesmente verá ou não certas coisas. É claro que a abertura também limita a magnificação, mas existem muitas coisas que não precisam ser muito ampliadas para serem apreciadas, como a Lua, aglomerados estrelares e nebulosas.

Acabei decidindo então comprar um telescópio refletor de 200mm, com uma montagem dobsoniana, pois este modelo era o mais barato pensando na relação preço\abertura. Ele não tem nenhum sistema eletrônico de compensação pelo movimento terrestre e nem de procura automática de objetos celestes, mas acho mais divertido procurá-los eu mesmo. Preferi poder ver mais do que encontrar mais rápido e automaticamente.

Durante o primeiro mês em que usei o meu telescópio refletor de 200mm, fiz um registro das coisas que fui observando.
Aqui está a transcrição dele: observações.htm

Para ler as novas observações que tenho feito, entre aqui: observações2009.htm

 


Céu noturno de Abril de 2008, com o grande eucalipto a direita.
Mesmo distante, nota-se na parte inferior do céu a luminosidade de São Paulo.
Algumas das constelações visíveis nesta foto, da esquerda inferior até direita superior:
Centauro, Cruzeiro do Sul e Carina.


 

Noturno.

Pintei um quadro noturno à luz da Lua cheia, sem usar iluminação nenhuma fora a da Lua, com todas as luzes ao redor desligadas. Isso permitiu que meus olhos ficassem mais sensíveis à sutil luz noturna, só que menos sensíveis ao que via no quadro. Isso teve um efeito interessante, pois senti mais liberdade ao pintar por não ver tão bem o que fazia, e a pintura fluiu muito bem.

Os troncos da esquerda são de uma árvore chamada Embaúba. Há outras fotos dessa árvore neste site, mas atualmente ela está com bem menos folhas, o que a deixa com uma silhueta interessante também. Os tucanos e outros pássaros vêm comer do fruto dessa árvore.

Uma parte da constelação de Sagitário, em cuja direção se encontra o centro da nossa galáxia, está presente na pintura.

 


Noturno - acrílico sobre tela - 65x78cm - 2009


 

 

Sagüis.

Hoje vimos um grupo de três Sagüis-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) numa árvore ao lado da casa, e oferecemos banana para eles. Primeiro ficamos mostrando a banana, coloquei-a num galho da árvore, e quando fui distanciar-me para ver se eles pegariam a banana, eles já estavam devorando-a. Sempre vemos grupos dessa espécie, e conhecemos bem seu chamado, que é bem agudo, mas ficamos surpresos em ver que poderíamos chegar tão perto deles. Demos mais um pedaço, e eles o comeram da nossa mão. Li que esse sagüi não é da região, ele fui introduzido, mas se adaptou bem por aqui.

 


Sagüi comendo banana da minha mão


 

Flores.

Considero que aqui há três grupos de plantas que dão flores: as que plantei para decorar o jardim, as plantas da horta que também dão flores, e as que nascem espontâneamente por aí.

Fiquei surpreso com as plantas da horta, pois quando as plantei eu não esperava flores. Foi algo que não levei em consideração e que por isso foi ainda mais agradável. Alguns exemplos são as flores amarelas do Pepino e de toda a sua família, como a Abóbora, e as flores roxas da Ervilha-torta. A exceção é o Girassol, que plantei sabendo o que esperar!

A flor é o orgão sexual das plantas, e pode tomar incontáveis formas, tamanhos, odores e cores. Tudo depende da relação com o animal que vai ajudar a polinizá-la. Com isso em mente é interessante pensar em como elas são belas e agradáveis também para nós, que nada temos a ver com esse processo.

 


Flores espontâneas. Não plantei-as e não cuido delas, e no entanto são as mais abundantes.

 

Mais uma vez vou ter que dizer que antes de vir para cá eu não conhecia quase nada sobre as espécies de flores, a frequência em que floriam, os tipos de sementes que se desenvolviam... e agora eu ando por aí assim: "Olha só, as hortênsias começaram a florir!".

Para ver mais algumas fotos de flores daqui, entre em /flores
Dedicado à Jasmim.


 

Lua cheia.

Aqui as noites de Lua cheia com o céu limpo ou parcialmente limpo são muito prazerosas. A realidade toma uma nova forma, anda-se por aí com uma outra sensação.

 


Foto de longa exposição durante a Lua cheia. Noite vira dia.
Ainda dá pra ver algumas das estrelas de Escorpião.


 

Morte.

Quando vivemos em contato com a natureza, rapidamente aprendemos sobre a verdadeira importância e papel da morte e renovação dos seres vivos. Longe de ser um tabu, a morte se torna um processo vital importantíssimo que aprendemos a respeitar e aceitar melhor.

Encontrei um macaco morto no mato, que provavelmente caiu ao pular em um galho podre, e foi uma experiência muito forte observar a decomposição de seus restos e pegar os seus ossos. O cheiro era incrívelmente forte, pude sentí-lo de longe, por vários dias. A quantidade de seres que se alimentaram de seu cadáver é imensa. Seu crânio é realmente incrível e sempre que o vejo me lembro de que há um dentro de minha cabeça, e que ele virá a tona mais cedo ou mais tarde. É bom perceber, realmente entender que vamos morrer afinal.

Percebi que a melhor forma de ser enterrado é diretamente no mato, para servir de alimento para os animais e para as plantas. Nada melhor e mais limpo que isso.

 


Pássaro que encontrei morto. É uma fêmea da espécie Vivi.
Dois dias se passaram entre as fotos. No dia seguinte ele não estava mais lá.


 

Erosão

Aqui no terreno vizinho corre uma enorme quantidade de água quando chove, pois toda água que vem de uma grande extensão da avenida asfaltada situada morro acima acaba vindo para cá. Eu já acompanho a erosão desse terreno desde que comecei a vir. Quando chove muito, um riacho e cachoeira se formam e já havia um buraco devido às chuvas passadas. Mas as últimas chuvas foram realmente violentas, o que causou que o buraco mais que triplicasse de tamanho no último mês, descobrindo até rochas que estavam bem profundas e derrubando árvores. A erosão está também afetando o meu terreno, e um pedaço considerável de terra desbarrancou bem perto da antiga casa do caseiro. A maioria das ruas da região, que são de terra, estão praticamente intransitáveis. Fui na prefeitura de Mairiporã fazer uma reclamação, pois na verdade toda essa quantidade de água só vem para cá porque está sendo direcionada. Creio que em breve eles farão um desvio para grande parte dessa água, lá na avenida.

Na cidade de São Paulo a situação é ainda pior porque a água causa grandes inundações. Ambas as situações são causadas pelo asfalto que impermeabiliza o solo. A água deveria ser absorvida pelo solo ou direcionada naturalmente para regiões mais baixas através de córregos e riachos, que na maioria das vezes já estariam lá, somente aumentando de volume.

De qualquer forma, foi interessante observar a força e a erosão causada pela água, que só para quando chega na rocha (nunca para na verdade, água mole em pedra dura...), algo similar à formação de um riacho e cachoeira.

Veja mais fotos da erosão: /buraco

 


Buraco erodido pela água


 

Magrela.

Cada um dos meus cachorros, que são três, tem uma história interessante.

A da Magrela é a mais engraçada de todas. Bem no final de 2007 uma cadela apareceu aqui num dia chuvoso com um filhote acompanhando-a. Fiquei espantado em ver um filhote cruzando a mata seguindo a mãe, os dois todos sujos de terra. Dei um pouco de comida pra eles. Nos dias seguintes eles continuaram a aparecer, mas as vezes vinham com uma outra cadela, que tenho quase certeza que é irmã do filhote, mas de uma cria anterior. Fomos viajar, e quando voltamos, depois de uns 10 dias, a tal cadela estava na escada. Pareceu até que estava nos esperando. A mãe e o filhote nunca mais apareceram, mas a irmã nunca mais foi embora. Na verdade nunca demos um nome para ela, por isso ficou "Magrela". Ela é muito magra, parece aqueles cachorros de corrida, e ela realmente corre muito!

 


A Magrela, cadela da região

Meus outros cachorros e gatos: Tobi, Tutu e as gatas Branca e Amarela


 

Tiê-preto no espelho.

Arrumando a casinha que era do caseiro, deixei um espelho pra fora da casa junto com outras coisas. Depois de um tempo, sempre que eu passava por esse lugar comecei a notar que um tiê-preto macho estava sempre por lá, e ele voava quando eu chegava.

O Tiê-preto macho é muito bonito, ele é preto-azulado, mas com as partes interiores das asas brancas, que dá pra ver quando ele voa, e li que ele exibe essa parte branca para um macho rival quando competindo. Ele tem um topete vermelho escondido por baixo da penugem da cabeça, que ele só exibe quando ergue as penas (dá pra ver o topete nesta foto). A fêmea é parda.

Tentei descobrir o que é que ele estava fazendo por lá, procurei um ninho, ou qualquer coisa que desse algum sinal de interesse, mas não encontrei nada. Eu via que ele estava sempre perto do espelho, e suspeitei que tivesse algo a ver. Fiquei meio longe esperando ele voltar, e foi muito engraçado descobrir que ele estava mesmo sendo atraído pelo espelho. Ele passava uma grande parte do dia lá, sempre que ia embora ele voltava menos de cinco minutos depois, e observei isso por vários dias, antes de descobrir que era de fato o espelho que o interessava. Fiquei intrigado em saber o que é que o atraía no espelho, acho que ele pensava que era um outro macho.

Depois de tirar algumas fotos, virei o espelho, quebrando o encanto.

 


Tiê-preto macho enfeitiçado pelo espelho


 

Quadros

Meu trabalho própriamente dito é a pintura. Venho de uma família de pintores, o que me levou naturalmente para esse caminho. Para ver mais de minhas pinturas, entre no site taminogruber.com ou tamino.deviantart.com

O quadro abaixo é uma pintura que fiz do caminho para a Serra, que passa pelo Parque Estadual da Cantareira. É um caminho muito bonito. Conforme vamos subindo a Serra dá pra perceber como o ar e o clima vão mudando, deixando a cidade quente e poluída para traz.

 


Caminho para a Serra - óleo sobre tela - 0,7x1,0m - 2006


 

Agapornis.

A convivência com a maitaca me lembrou muito de um outro pássaro que tivemos. No ano passado, nos deram uma Agapornis, um periquito africano. Eu não concordo em que se compre pássaros, mas como nos deram, nós aceitamos, com o intuito de deixá-la ir se ela quisesse. Não demorou muito para que ela começasse a voar por aí, mas ela acabava voltando, até que um dia não voltou mais. Como ela não é daqui não sei se encontrou outros como ela, mas pode até ser que sim, já que é um pássaro tão comum em cativeiro e que provavelmente soltam ou fogem um ou outro por aí.

 


A agapornis Mena. Ficou só um tempinho conosco.


 

Obra.

Ao lado da antiga casinha do caseiro tem uma escada que era aberta para a rua. Uma das primeiras coisas que fiz depois que o caseiro saiu foi construir um portão lá. Como foi a primeira obra que fiz (ou mandei fazer), foi um pouco difícil, mas acabou ficando bom. O portão em si foi bem barato pois comprei um mostruário, mas a mão-de-obra e o material é que acabaram saindo mais caro.

Desde que chegamos aqui fizemos várias melhorias nas casas e no terreno. Limpamos, arrumamos, cortamos a grama, pintamos paredes, refizemos toda a parte elétrica, trocamos torneiras, consertamos as privadas, limpamos as caixas d´água, arrumamos as portas, janelas e telhados, podamos algumas árvores, plantamos outras, e mandamos muita coisa embora.

O Fernando, um amigo meu, está construindo uma casa lá no Bonete, no outro lado da Ilha Bela. Ele está constuíndo uma casa bem planejada, num lugar afastado de toda a poluição da cidade, com muito mais qualidade de vida. Fico imaginando como deve ter sido difícil construir do zero, ainda mais pelo fato de que lá não há acesso por estradas, só por barco. Ele está fazendo um blog sobre a obra, que foi o que me inspirou em começar a escrever sobre as coisas que tenho vivido aqui também. Dêem uma olhada: obra.100linhas.net

 


Portão que colocamos na escada.


 

Aquarela.

Tenho pintado aquarelas, acrílicos e óleos desde que vim para cá. As aquarelas são as que mais tem despertado meu interesse pois são bem delicadas e suaves, e sinto que de uns tempos pra cá dominei bem a técnica, trabalhando com bastante calma e paciência. É muito bonito espalhar o pigmento em uma área previamente molhada, ele vai se espalhando e tomando uma forma bem natural e orgânica. Também tenho tomado cuidado pra não saturar demais, não trabalhar mais do que devo em uma aquarela, pois aí a transparência e sutileza vão se perdendo.

 


Natureza morta em execução.


 

Hospedeira.

Um dia vi um ser estranho se mexendo e fui ver de perto o que era. Para minha surpresa vi uma vespa vermelha carregando uma aranha bem maior do que ela. A aranha estava paralizada pelo veneno da vespa, mas ainda estava viva. Vi em um documentário que as vespas colocam os seus ovos em hospedeiros como essa aranha, e assim que as larvas eclodem dos ovos, comem o hospedeiro, que foi mantido vivo mas paralizado por todo esse tempo. As vespas evoluiram para grupos sociais de marimbondos e formigas que não tem mais esse comportamento, pois desenvolveram outras formas de alimentar as larvas, coletivamente.

 


Vespa que capturou uma aranha.


 

Aprendizados e privações.

Com o tempo, venho aprendendo e refletindo sobre as coisas que acreditava, relacionadas à natureza, meio-ambiente e impacto humano. É sempre um choque entre o que nos foi ensinado, o que idealizamos e o que observamos e aprendemos na prática. O entendimento da nossa relação com a natureza vai mudando de perspectiva e vemos como a natureza age e se transforma de forma imprevisível e inesperada, conforme vamos tentando entender o nosso papel nesse sistema. Tento e gostaria de não ter tantas crenças rígidas e pré-estabelecidas, mudo bastante de opinião conforme vou aprendendo, e até me sinto tolo e ingênuo muitas vezes, mas acho que é inevitável que seja assim. O mito da "natureza inalterada" é uma das coisas que mais estou tendo que trabalhar, assim como o tema da sustentabilidade e estilo de vida. A intervenção humana na natureza pode se dar de diversas formas, por isso temos que ter cuidado com idéias que coloquem o homem sempre no papel de vilão ou de salvador, como fazemos frequentemente.

Há muita coisa que não sei, estou tentando aprender na prática o que acho importante, mas sinto que temos muitas limitações psicológicas e culturais. Por isso acabamos fazendo o que sabemos fazer, o que achamos melhor fazer, ponderando sobre cada situação. Acabamos também por fazer coisas que não queremos, mas não dá pra sair tudo do nosso jeito. Acho que nos ensinaram a querer tudo da nossa forma, e também a querer confortos desmerecidos e desnecessários. Desde que viemos para cá começamos a fazer tudo nós mesmos, incluindo varrer e limpar, lavar roupa, fazer comida, cuidar dos bichos, fazer pequenos concertos e reparos etc, mas são coisas que decidimos fazer e que fazemos com prazer. No começo nem tínhamos máquina de lavar e lavei minha roupa no tanque por alguns meses (depois me deram uma máquina antiga). Também cuido da grama, do mato e das árvores. Gosto muito de aprender a fazer as coisas eu mesmo ao invés de pagarmos outros para fazê-lo, ocupamos o nosso dia com coisas mais práticas e "reais" dessa forma, precisamos de menos dinheiro e usamos o nosso corpo muito mais.

Uma pessoa que nasce em uma cultura diferente, sem tanta influência da cultura global pode ter uma vida que consideraríamos uma de "privações", sem sentir que está se privando de nada. Já nós, mais "civilizados", se tentarmos viver como eles provavelmente não vamos conseguir, principalmente por não termos os conhecimentos necessários e nem o costume de viver daquela forma. Por isso, se quisermos mudar nosso estilo de vida radicalmente de uma hora para outra, podemos enfrentar dificuldades. Acredito em mudanças, mas não da noite para o dia. São pequenos passos que são dados aos poucos, caso contrário a mudança é inconsistente e insustentável.

Não acho que devemos privar-nos das coisas que gostamos e (achamos que) precisamos, mas sim questioná-las, pensar no porquê de gostarmos ou precisarmos delas, sabermos mais sobre como chegaram a nós (como foram produzidas), e percebermos se elas realmente fazem bem a nós mesmos, aos outros, e a tudo que nos cerca. Com isso em mente adotei uma dieta vegetariana e parei de comprar e consumir produtos de origem animal, por exemplo. Isso não quer dizer que eu não gostava de comer queijo ou peixe, mas fiz uma escolha com base nas informações que tenho sobre a origem desses produtos e a exploração dos animais, como são tratados, manipulados e escravizados pela indústria. Quanto mais sei sobre as coisas que consumimos, mais percebo que não concordo com os meios de produção, a extração de matéria-prima, o transporte através de longas distâncias, as embalagem desnecessárias e propagandas impositivas relacionadas aos produtos. Não faz sentido consumir e pagar por algo que achamos errado, mas ainda assim o fazemos. Damos nosso dinheiro (que é fruto do nosso trabalho) para esses determinados fins, financiando esse sistema, fazendo-nos responsáveis pelo que compramos e criando cumplicidade. Ainda não sei ao certo como sair desse paradoxo, pois a sustentabilidade é uma coisa bem utópica e difícil de se alcançar para qualquer um, mas podemos tentar das passos nessa direção.

A minha decisão de fazer esse site foi exatamente para compartilhar com os outros as coisas que fui aprendendo, assim como o deslumbramento que sentia e as dificuldades que fui tendo, pois acho que muita gente pode se sentir como eu, e muitas vezes é difícil tomar a iniciativa de sair desse sistema e tentar criar uma outra forma de se relacionar com o mundo. É difícil explicar minhas motivações em vir para cá e tentar viver dessa forma, pode parecer uma auto-imposição para quem acha que estou me privando de algo, mas pra mim é um prazer conseguir me independer pouco a pouco (bem pouco) da sociedade capitalista e viver de forma minimamente mais independente. Já faz uma boa diferença em como me sinto.

 


Aquarela que fiz de uma árvore daqui


Essa mesma árvore caiu devido às chuvas constantes no final de 2009


 

Coisas que não dá pra fazer na cidade:

  • Criar os cachorros soltos
  • Fazer fogueira
  • Comer alimentos frescos direto do pé
  • Jogar restos orgânicos no mato
  • Urinar no mato
  • Ver estrelas
  • Dormir sem barulho
  • Não ter que se preocupar com os vizinhos
  • Observar dezenas de espécies de pássaros
  • Ver macacos e sagüis selvagens
  • Andar descalço
  • Aprender sobre plantas e animais no dia-a-dia, na pratica
  • Mexer na terra, plantar
  • Não ficar sabendo de tudo que acontece no mundo
  • Não ter que se preocupar com carros

 

 

Lúcio Tamino - luciotamino@gmail.com