Maitaca.

Dia 16/11/08:
Estávamos embaixo de uns pinheiros perto de um lago e nossa cadela que estava conosco (a Magrela) pegou uma maitaca. Conseguimos tirar dela rapidamente e a maitaca estava super agressiva, gritando muito, e mordendo bem forte quando eu tentava ajudá-la para ver se ela não tinha se machucado muito. Mas conforme fui observando-a, percebi que na verdade era um filhote que caiu do ninho, o que me surpreendeu já que era bem grande, forte e agressiva. Fiquei admirado em como ela era arisca. Já que ela caiu muito perto do lago e como ela não voava ainda e outros animais poderiam pegá-la, acabei decidindo levá-la e criá-la até que ela possa voar. Ela no começo me mordeu bastante, minhas mãos ficaram todas mordidas, mas agora ela já está bem mais calma. Gosta até de ficar no nosso ombro. Quando tentei alimentá-la no começo, ela não sabia comer sozinha, acho que a mãe ainda regurgitava alimento para ela. Compramos uma seringa para tentar dar uma papa de frutas amassádas misturadas com água, mas ela relutou um pouco a comer. Foi difícil no começo, mas agora ela já está comendo sementes de girassol, banana, abacate, mesmo sem a seringa, que tenho usado agora só para dar água. E tudo isso em apenas três dias!

 


Uma foto dela assim que chegamos em casa.
Ela ainda estava muito assustada.

 

Logo identifiquei a espécie. É uma Maitaca-verde, ou Maitaca-de-Maximiliano (Pionus maximiliani). Eu já havia observado essa espécie antes por aqui, eles passam gritando, geralmente sozinhos ou em casais. Eles tem uma penugem bem escura, meio cinza, na parte superior do corpo (mas o filhote ainda não). O modo deles de voar é bem carácteristico, voando com as asas abaixo do corpo, então é muito fácil indentificá-los em vôo, mesmo à distância.
Se você não sabe a diferença entre uma "Maritaca" e uma "Maitaca", entre aqui: sobre-nome-popular-maritaca

Esqueci de contar que ela estava com um berne entre o olho e o bico, ele já estava grande, tinha cavado fundo, e estava atrapalhando a respiração dela. Um berne é uma larva de mosca que vai comendo o hospedeiro até virar um adulto. Dá pra ver onde estava o berne na foto acima, ao lado do olho, onde não tem penas. Consegui matá-lo, e li depois que as vezes o berne chega a matar o filhote.

Dia 18/11:
Hoje, dois dias depois, saí de casa com ela no ombro, e ela escutou uma outra maitaca passando e vocalizando. Ela respondeu diversas vezes, o que foi muito emocionante.

 


Ela gosta de ficar no ombro

 

Dia 01/12:
Hoje a maitaca voou para uma árvore e não queria descer. Ficou lá um tempão. Antes, eu colocava ela em uns galhos de árvores baixas e ela ficava bastante tempo também, eu que tinha que tirar ela de lá. Mas hoje, ela estava numa árvore bem alta, e aí quando passou uma outra maitaca da espécie dela ela respondeu e dessa vez ele ouviu. Foi incrível, pouco depois chegou um bando deles, que eu nunca tinha visto, só tinha visto eles sozinhos ou em casais.
Não vi direito quantos eram mas acho que eram de uns seis a oito, e todos começaram a vocalizar, e ela também. Mas conforme eles foram indo mais pra perto dela não sei se ela que ficou com medo, ou se eles chegaram a atacar ela, mas ela acabou fugindo pro meio do mato.
Eles seguiram ela e ficou o maior alvoroço, eles todos gritando e fiquei com medo por ela, eles eram bem maiores que ela e em grande número. Li que os filhotes de Psittacidae (a família das maitacas, periquitos, papagaios e araras) ficam muito tempo com os pais, e como ela acabou saindo cedo do ninho, não teve a instrução que deveria ter, e nem fazia parte de nenhum grupo, o que pode ter causado o estranhamento que os outros ou ela demonstraram. Ainda preciso me informar se eles são territoriais ou algo assim. Segui-os, e decidi ir até onde eles estavam, sabendo que eu acabaria por espantar os outros, e que só ela ficaria. Chegando lá, vi-a numa árvore e não vi os outros, pensei que tinham ido embora. Outra coisa que eu havia lido sobre eles se confirmou: que são ótimos mimetistas quando necessário, ficando silenciosos e camuflados, inclusive quando voam. Só depois de um tempo percebi que ainda estavam ali, quando todos foram embora gritando, e só ela ficou. Parecia que ela estava muito assustada, ela ficou imóvel por vários minutos, e só depois de um tempo começou a fazer as coisas que ela fica fazendo normalmente, como mordiscar as folhas, se coçar e andar um pouquinho nos galhos. Mais uma vez tentei chamá-la, fiquei muito tempo lá com ela, mas ela não descia, e chegou um momento que percebi que ela iria ficar por lá mesmo. Agora é noite, e ela ainda está no mesmo lugar. Vou tentar acordar bem cedo e ver se ela volta, acho que ainda é cedo pra deixá-la ir embora.

 


Maitaca na goiabeira

 

Dia 02/12:
Choveu de madrugada, e fiquei pensando o que ia ser dela. Acordei as 6:00 e fui lá ver, no começo parecia que ela não estava mais lá, mas depois de chamá-la varias vezes ela acabou respondendo. Ainda estava no mesmo lugar. Depois ficamos mais um tempão lá em baixo, ela sempre respondia quando eu chamava, mas não descia. O legal foi que eu nunca tinha ido muito naquela parte do mato, e deu pra ver umas plantas e árvores bem interessantes. Vi também dois esquilos, um bem pequeno, parecia ser um filhote com a mãe. Vários pássaros também.
Depois de um tempo apareceram umas três maitacas, bem maiores que ela. Eles chegaram perto dela e um deles bicou-a um pouco, mas me pergunto se foi algo agressivo ou não. Eles sairam voando, gritando "maitac-maitac" e ela seguiu eles. Aqui é bem perto de onde a encontramos, então a família dela não está longe, pode até ser que foram eles que vieram. Agora estou mais tranquilo, pois era isso que eu esperava que acontecesse afinal.

 


Penas do rabo dela

 

Pássaros e outros animais que andam em bando estão começando a chamar bastante a minha atenção. A sociabilidade entre eles é bem interessante, e ver o bando de tão perto foi uma expêriencia bem forte, ainda mais me colocando no lugar da nossa maitaca. Fico me perguntando o que aconteceu naquele primeiro encontro entre ela e as outras maitacas. Minha interpretação foi de que houve uma certa agressividade, mas não sei ao certo, posso ter me enganado.
Outra coisa que fiquei pensando é que parecia que ela já estava bem domesticada: ficava sempre com a gente, dormia conosco, nós a alimentavamos, ela era super receptiva, gostava de carinho e de brincar... mas no fundo ela queria mesmo contato com outras maitacas, tanto que quando eles a chamavam ela respondia com muito mais entusiasmo do que a mim. Fico feliz, pois quando a encontramos o que mais gostei nela foi seu forte instinto, embora eu tenha me apegado a ela, e já sinto sua falta.

 


Close das penas da maitaca. Dependendo de como olhamos podem ser
verdes ou amareladas

 

Um vídeo dela:

 

Dia 13/12:
Fiquei um tempinho sem escrever, e nesse meio tempo, por incrível que pareça, a maitaca voltou e foi embora mais uma vez. Ela voltou poucos dias depois de ter ido. Ouvi os gritos das maitacas, assoviei e ouvi-a respondendo. Logo ela apareceu e veio até mim. Ficamos surpresos porque não tinhamos idéia se ela iria voltar ou não. No dia seguinte construí um poleiro para ela, que ela gostou bastante. Acho que ela gosta de ficar em lugares altos. Comecei a colocá-la em árvores todos os dias, e a fiz voar várias vezes vendo até onde ela ia e depois chamando-a de volta. Mas aí um dia, mais ou menos uma semana depois dela ter voltado, ela voou para umas árvores no terreno virgem, e depois de um tempo vimos que apareceram outras maitacas mais uma vez. Ela acabou indo com eles. A única vez que a vimos desde então foi uma vez que ela veio até aqui, respondia quando chamávamos mas não descia, e foi embora novamente.

 


Poleiro que fiz pra ela