Registro de Observações Celestes.

Durante o primeiro mês em que usei o meu telescópio refletor de 200mm, em Maio de 2008, fiz um registro das coisas que fui observando. Aí está a transcrição dele.
As fotos que usei pra ilustrar esse texto não foram tiradas por mim, mas só escolhi fotos que mostram próximamente o que eu podia ver através do meu telescópio, por vezes editando-as para mostrar o que eu via.

 


 

Usei o telescópio de 200mm pela primeira vez ontem. Foi surpreendente ver a quantidade de estrelas que se pode ver com ele, ainda mais comparando-o com o antigo telescópio de 60mm que eu usava, sem o finder, o que era um grande desafio. Ele só tinha uma ocular, e a magnificação era alta o que dificultava ainda mais e não proporcionava uma visão do contexto. No começo o finder do novo telescópio estava desregulado, mas assim que consegui regulá-lo ele se mostrou muito util para a localização dos objetos, assim como eu havia imaginado. As oculares de maior campo de visão como os de 32mm e 25mm são muito bons, com uma grande área de observação. Conforme vão diminuindo a visão fica cada vez mais estreita e na verdade as oculares de 6mm e 4mm são demasiado estreitas. Achei uma boa solução utilizar o barlow com a ocular de 9mm ou 15mm proporcionando assim uma visão equivalente a 4,5mm e 7,5mm com uma área visível maior. Tive grande dificuldade com o ajuste de colimation (um ajuste necessário a telescópios refletores) do novo telescópio, mas por enquanto os resultados são satisfatórios e em breve espero conseguir regulá-lo adequadamente.

O céu do começo de Maio proporciona boas observações, com uma bela parte da Via-Láctea presente. As regiões da constelação de Carina, Cruzeiro do Sul, Centauro, Escorpião e Sagitário contém inúmeros corpos celestes. Um dos mais impressionantes é Omega Centauri, um cluster globular que apesar de estar a 15.600 anos luz de distância, têm o diâmetro aparente maior do que o da Lua e é o maior e mais brilhante cluster globular da Via-Láctea, contendo mais de um milhão de estrelas. Eu já havia observado este cluster com o outro telescópio, mas só via uma bola nebulosa. Já no de 200mm, dá pra ver incontáveis estrelas individuais, e ao magnífica-lo notei um padrão interessante, com areas mais escuras, como uma rede.


O aglomerado globular Omega Centauri
Foto do site starryscapes.com

A constelação de carina contém areas com uma enorme concentração de estrelas, os clusters abertos com o maior número de estrelas que vi. Um deles na verdade chama a atenção não pelo número de estrelas, mas pelo seu brilho, o Pleiades do Sul. Foi uma das primeiras coisas que vi com o novo telescópio, e o brilho de suas estrelas é realmente muito bonito. A nebulosa de Eta-Carina também impressiona bastante, creio que seja a nebulosa mais brilhante da região, uma nebulosa onde estrelas estão nascendo, mas uma delas, a Eta-Carina, está morrendo, ejetando material.

Observei também os planetas Saturno e Júpiter. Os dois são muito brilhantes. Os filtros que vieram na maleta de oculares talvez ajudem em certos aspectos, mas até agora não achei muito produtivo utilizá-los. Em alta magnificação, os planetas passam muito rapidamente, o que é sem dúvida um dos fatores desfavoráveis de ter comprado um telescópio sem motor. No geral, acho que minha decisão de favorecer a abertura e abrir mão de sistemas eletrônicos foi correta, e um dos maiores motivos é: de que adianta encontrar rapidamente os objetos se não for possível vê-los? Digo isso porque as coisas que mais desejo observar são objetos longínquos e difusos como nebulosas e galáxias, mas agora que observei galáxias com este telescópio de 200mm, notei que elas são realmente muito fracas, e num telescópio de menor abertura seriam ainda mais, ao ponto de não podermos observá-las. A procura dos objetos também é uma das motivações em observar o céu, e cria uma familiaridade e aprendizado que seriam muito menores com um sistema automático. É interessante observar as quatro maiores luas de Júpiter, pois a cada dia elas estão em posições diferentes. Hoje, quando comecei a observar Júpiter, uma das luas estava "encostada" nele, e com o passar do tempo ela foi se afastando.


Júpiter e três de suas luas
Foto do site my-spot.com

Observar a Lua no novo telescópio foi bem produtivo, pois além de ter muito mais nitidez em ângulo aberto, é possível vê-la em diversas aproximações trocando de oculares, ao ponto de ser possível ver crateras e montes individuais, assim como os "mares". Em noites com Lua é mais difícil observar estrelas, os aglomerados globulares e nebulosas ficam bem mais fracos, assim como as estrelas de maior magnitude (quanto maior a magnitude, mais fraca a estrela).

Foi legal ver os aglomerados (M6 e M7) de Escorpião, pois foram os primeiros aglomerados que vi com o outro telescópio, lembro que os encontrei sem querer, logo no primeiro dia de observação, e pensei "nossa, o telescópio mostra estrelas em qualquer lugar que eu apontar", mas logo percebi que isso não era verdade. Cheguei a confundir um aglomerado com uma constelação, devido ao padrão que é possível ver em aglomerados e pelo fato de que ainda não sabia o tamanho que as constelações tinham e o espaço que ocupam no céu.


O aglomerado aberto M7 em Escorpião
Foto do site messiercatalog.blogspot.com

Tentei em duas ocasiões ver chuvas de meteoros este ano, mas as condições climáticas não ajudaram e nem o ponto da radiante, mas tive sorte ontem e vi um meteoro incrível. Ele passou por uma longa extensão do céu numa velocidade mais reduzida do que o normal. O tamanho dele também parecia maior e ele deixava um belo rastro ao queimar e cair pela atmosfera. Suponho que ele fosse realmente maior do que os meteoros que vi até hoje e que talvez ele estivesse próximo de mim.

Dia 21 de Maio de 2008:
A Lua apareceu por cima do morro as 19:20, ontem ela estava ao lado de Antares mas hoje já estava distante.
Foi muito bom ler o livro "How to use an Astronomical Telescope" pois agora ao observar a Lua, sei o que estou vendo, e isso faz a observação ser muito mais proveitosa e prazerosa. Existe uma grande quantidade de informação na imagem da Lua e agora sinto que é mais fácil tentar distinguir o que é que estou vendo. Os "mares" são areas que foram inundadas por lava, o que resultou numa superfície mais lisa e escura, e as areas mais claras são mais antigas e por isso bem mais marcadas por impactos de meteoros. Os mares eram areas mais baixas resultado de grandes meteoros, que a lava preencheu, e as vezes dá pra ver sinais do que antes era uma cratera. Durante a Lua cheia a observação não é tão interessante pois não dá pra ver o relevo pois só na fronteira entre dia e noite lunares é que é possível porque as sombras destacam o relevo. Por isso foi muito legal ver a Lua hoje, porque o auge da Lua cheia foi a dois dias e agora as sombras já estão acentuadas. Um dos mares que já tinha me chamado a atenção, o "Mare Crisium" estava espetacular hoje, e dava pra notar nitidamente que o "mar" é mais baixo que a area ao redor, dava pra ver claramente muitas características do relevo, que é muito acidentado ao redor deste mar, lembrando uma cadeia de montanhas e vales de rios.


Mare Crisium (Mar das Crises) na fronteira entre o dia e noite lunares (terminador)
Foto do site hampsteadscience.ac.uk

Dia 22: Lua as 20:15h, Júpiter com uma de suas luas em conjunção.

Dia 23: Lua as 21:05h
Observei Marte hoje pois li que ele iria atravessar um cluster aberto em Câncer, o M44. Marte está bem mais fraco do que no começo do ano, creio que deve estar mais distante.


Marte passando pelo aglomerado estrelar M44, em Maio de 2008
Foto do site weatherandsky.com

Hoje consegui ver duas das galáxias em Leão. Elas eram bem fracas, mas foi interessante. Eu imaginava que daria pra ver melhor as galáxias, não imaginei que eram tão pequenas e fracas. Hoje vi algo estranho ao procurá-las. A leste de Saturno, havia uma luz branca fraca como uma estrela que piscava regularmente. Ela estava aparentemente parada.

Dia 24: Lua as 22:05h

Dia 25: Lua as 22:55h
Tenho observado a lua todos os dias para perceber as mudanças causadas pelo avanço do terminador, que é a fronteira entre dia e noite lunares. Acabei finalmente entendendo as fases lunares em relação ao horário em que aparecem. A Lua cheia aparece cedo no céu, pois está em oposição com o Sol e por isso a vemos inteira brilhante. Conforme ela gira em torno da Terra, ela aparece no céu cada vez mais tarde, uns 50 minutos mais tarde a cada dia, e quando está chegando no ponto em que ela entrará na fase de Lua nova ela aparece no céu cada vez mais perto da manhã até o ponto em que ela entra em conjunção com o Sol durante a Lua nova e o disco está totalmente escuro, só o outro lado está iluminado. A partir deste momento a Lua só aparecerá no céu durante o dia, até voltar à Lua cheia.


Todas as fases da Lua
Foto do site wikipedia.org

Dia 26: Lua as 23:40h, cada dia nascendo mais ao norte.
Hoje a noite foi bem escura, ótima para observação. Deu até pra ver o centro da Via-Láctea, em Sagitário, a olho nú. Essa região apresenta milhares de estrelas distântes bem fracas e vários aglomerados globulares. Vi também algumas nebulosas como a Lagoa e Trifid Nebula. O mais interessante é observar a Via-Láctea a olho nú e tentar imaginar, ou mesmo ver (entender) o centro galático, sabendo da sua magnitude e o lugar em que estamos dentro da galáxia em relação a ele. É raro sentirmos que estamos realmente olhando para a imensidão do espaço e que realmente estamos vendo coisas tão grandiosas.


O centro da Via-Láctea em Sagitário, próximo do que se pode ver a olho nú.
Foto do site astronomy.org

Dia 27: Lua 00:30h
Ontem vi muitos dos aglomerados globulares de Sagitário. A maioria deles é bem pequena e fraca. O M22 é o maior e mais bonito, mas é bom lembrar que isso é em relação a meu ponto de observação, e que na verdade os globulares "pequenos" que mencionei não são pequenos, mas sim distantes. Eu localizei os globulares M22, M28, M54, M69, M70, M55 em Sagitário, M4 E M80 em Escorpião, 6397 em Ara, Omega Centauri, 4833 em Musca. Vi também um globular bem pequeno que não estava no mapa, perto da estrela Lambda Sagitarius.

Vi três nebulosas em Sagitário: a Lagoa, Trifid e Cisne. Ontem observei o céu até a madrugada, quando o ar estava limpo, a noite escura e Sagitário alto no céu. Essas condições foram importantes para que eu visse melhor do que nunca a Lagoa, com muito mais áreas de nebulosidade e portanto uma extensão muito maior. As primeiras vezes que vi essa nebulosa vi só uma pequena mancha com um aglomerado estrelar aberto ao lado dela, mas ontem vi esse aglomerado como parte da nebulosa.


Nebulosa da Lagoa - M8
Foto do site meade.com

Em Sagitário observei também uma das áreas mais bonitas que vi até agora: a Pequena Nuvem Estrelar de Sagitário, ou M24. É uma área alongada com incontáveis estrelas fracas (distantes). Na verdade essa "nuvem" é o inverso: um buraco em uma nuvem negra de poeira que permite que vejamos o que há por detrás, num braço interior da galáxia.


Detalhe da Nuvem Estrelar de Sagitário M24
Foto do site noao.edu

A Lua estava bonita também, dava pra ver uma cadeia de montanhas "suspensas" na escuridão, silhuetas de crateras também destacadas contra a noite e a cratera escura Platão, que tinha uma sombra peculiar pontiaguda que demonstrava que na sua borda havia um pico elevado.

Dia 28: Lua a 1:25 (madrugada do dia 29)
Continuei observando a Nebulosa da Lagoa. Usando a ocular de mais aberta (a de 32mm), com uma magnificação de somente 37,5 vezes, ela ainda assim ocupa a maior parte do campo de visão. Observei-a no zênite (90º acima da minha cabeça), o que garante menor interferência atmosférica e tive uma ótima experiência. Movimentando o telescópio pude notar nitidamente que essa nuvem bloqueia as estrelas de fundo, o que possibilitou uma identificação ainda maior de suas características. Também sinto que estou começando a identificar as nebulosas escuras ao redor de áreas com grande concentração de estrelas ou nebulosidade. Conforme fui passando da nuvem estrelar M24 para a área escura ao seu redor, comecei a ver que as regiões intermediárias não eram uniformes, mas sim com variações de luminosidade e nebulosidade fragmentadas.

A Lua está cada vez mais escura, e foi legal ver a parte escura contra o céu negro, pois a Lua não chega a ficar negra como o céu, e sim meio cinzenta e acho até que consegui ver certas características como o Mare Crisium na penumbra.

Dias 29 e 30: O tempo fechou, o que impossibilitou qualquer observação,e não parece que vai abrir tão cedo. Pelo menos considero que tive sorte pois as noites estiveram ótimas por mais de 10 dias.

Dia 10 de Junho: O tempo ficou fechado por bastante tempo, mas hoje estava melhor. Localizei a constelação de Ophiuchus onde observei alguns globulares e um aglomerado aberto que vi a olho nú antes de apontar o telescópio. Observei também a Lua pela primeira vez desde que ela está na fase crescente. Ao observar Júpiter em alta magnificação (9mm + 2x barlow = 4,5mm) pude notar as luas como discos e não somente como pontos luminosos.

2009:

Está passando pelo sistema solar um cometa chamado Lulin (C/2007 N3). Ele pode ser visto a olho nu de lugares escuros e céu limpo. Ele foi descoberto recentemente por um chinês chamado Quanzhi Ye, e pelo que parece esta é sua primeira passagem pelo Sistema Solar.


Posição do cometa em fev/09

17/fev/09: O céu esteve encoberto quase todos os dias por um bom tempo, então aproveitei a chance de vê-lo quando percebi que o céu tinha aberto durante a madrugada, lá pelas 4h da manhã. A luz da Lua - embora ela estivesse minguante - estava bem forte e atrapalhou um pouco. Quando o vi pela primeira vez achei que era um aglomerado globular, mas ao conferir no mapa confirmei que era o cometa. Dia 24 será o dia de maior aproximação entre o cometa e a Terra, e além de estar mais brilhante neste dia, ele passará perto de Saturno (do nosso ponto de vista), o que deve ser bem interessante de observar. Os cometas, ao passarem perto do Sol, esquentam e liberam enormes quantidades de gases e vapores. No caso do Lulin os gases liberados são carbono diatonico e cianogeno, o que faz com que ele tenha um brilho esverdeado.


O cometa Lulin.
Foto do site spaceweather.com

18/fev/09: Observei o cometa mais uma vez, e foi interessante notar o seu movimento relativo às estrelas de fundo. Fiquei pouco mais de duas horas e nesse meio tempo ele andou consideravelmente, atravessando o espaço entre duas estrelas que usei como referência. A animação abaixo ilustra bem o que observei.


O movimento do cometa no espaço de uma hora
Foto do site spaceweather.com